100 Olhares
- Fernando Calado
- 9 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
A paz... tão perto e tão longe
Fernando calado (texto) / Luis Cangueiro (foto)

Moçambique, Tete, Caunda tão perto e tão longe. A guerra africana... os sonhos
adiados... o medo. De semblante sombrio caminham vagarosamente. Saem do abrigo
humílimo das palhotas e vão à procura da palavra de conforto e de esperança: - A guerra
vai acabar e todos somos portugueses! Dizem os soldados brancos nas infindáveis ações
de caráter «psicológico, social e de presença».
Hoje é dia de ouvir... a caminhada é breve... mas tão longa... a morte anda por perto... o
sofrimento amortalha o sorriso. Caminham... passos lentos... para mais um encontro
onde brancos e negros falam da paz e da irmandade, à sombra amena do coberto de
colmo. Olhar distante. As palavras afagam o sentir, mas as armas não se calam.
Caminham... a amizade entre os povos é possível.... Mas os rostos continuam
carregados... os tambores das longas noites de batuque, de festa, de magia e de luar já
se calaram. Somente se ouve ao longe o som da guerra e da morte anunciada.
Resistem estoicamente. As mulheres transportam às costas os filhos e o futuro. Os
homens amortalham-se em longos silêncios na antiquíssima noite africana onde se
escondem todos os fantasmas e se acoitam todas as dúvidas. As crianças caminham de
braços cruzados, mas seguras pela presença protetora das suas mães.
Amanhã será um dia melhor... calar-se-ão as armas e surgirá no horizonte da
esplendorosa manhã africana o anúncio, tão esperado, do fim da guerra, o anúncio da
paz, do respeito e da irmandade entre os povos de todas as cores e de todas as nações.
... a paz ainda é possível.


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