100 olhares...*
- "xetubalsite"

- 29 de jan.
- 1 min de leitura
Leonor Losa (texto) / Luis Cangueiro (foto)
Há nas mil faces das mães

Há nas mil faces das mães o infindável assombro da substância do mundo, para lá do tempo e dos mapas, o olhar profundo para dentro que abre todos os caminhos, ultrapassa a história e corre nas nossas estradas internas, atravessando o tempo e a memória, a ruína das mágoas e a insana felicidade, o grito de dentro, para afirmar depois do tempo a inteira e pura verdade. É no espelho dos olhos das mães que a existência se abre. Ali, nas mil interrogações das suas faces fechadas. No profundo acolhimento dos seus braços e dos seus dedos entrelaçados que existem os filhos. Essa existência que decorre da integridade dos braços e dos pés e das enormes barrigas onde cabe o mundo, onde tudo se recolhe e nada se extingue e é, sem tempo nem lugar, a matéria do amor. Demoram-se os filhos nas mil faces das mães. E nas suas faces as mães cospem as mil trevas transformadas em luz e cravam os caminhos carregados dos seus passos a abrir as estradas por onde se escoa a vida, nos silêncios abandonados de ser mãe. Demoram-se os filhos nos seus braços de onde escapam amiúde e onde retornam e ficam demorando-se sempre mais para a eternidade, nessa essência de ser mãe que nos corre por dentro e precede todas as coisas, todos os homens, todos os gestos, todos os deuses.

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