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- XetubalSite

- 27 de fev.
- 2 min de leitura
Autobiografia
Cremilde Esteves (texto) | Luis Cangueiro (foto)

Chamo-me Lita e, absorvido pela história, não carrego qualquer apelido. Vivo numa espécie de semiclandestinidade. Não possuo identidade. Penso em Ba Ka Khosa, o meu poeta, e sinto-me a pertencer a um saco de feitio diferente de todos os outros, como ele diz. Sou pessoa de rosto queimado, toda a expressão de abandono e de solidão se me concentra nos olhos de escura intensidade. Apenas existe nesta minha solidão um estranho outro objecto o qual me fascina a vida. Restou órfão de um grande naufrágio e jazia ali sem ondas nem tormentas, encalhado entre fragas. O meu tambor. Sou um ser minúsculo sob este sol escaldante. Se tivesse bolsos enchia-os de escaravelhos. Eu sou moreno, bem moreno, de pequena estatura, redondo de cara e com cabelo a querer já impor-se. O meu pensamento está expresso nos meus olhos. Trago-o sempre comigo. E com a minha cara, tomada de terror, fito as ideias com as quais penso salvar a humanidade. São muito poucas. Era só o céu deixar-nos cultivar umas sementes. Acabava-se a fome e a guerra. Os homens estavam salvos.
Vasculhando o Largo, agora feito de caminhantes abstractos, aquela presença comoveu-me na noite… Um tambor oferecia-se, desajeitado, à minha altura. Estaria ali à minha espera, porque ninguém o solicitou antes. Rindo-se de mim com infinita delicadeza ajudou-me a largar o meu tom sombrio. E eu animava-me com as borboletas escondidas. Os meus olhos pareciam ter um impulso vital…
Lita é o meu nome neste momento. Estou sempre na rua… Compreendo o silêncio desta gente. Desta vida apenas vou guardando a recordação do meu tambor. Prefiro o batuque modernizado, passo horas a aprendê-lo. Também podia dançar ao som de outros tambores, desajeitado, os braços levantados e a barriga a girar enlouquecida, mas fico-me pelo meu Ligoma.

Um texto de uma densidade impressionante. É admirável como estas palavras conseguem dar uma biografia tão profunda a um rosto: a ligação a Ba Ka Khosa, o simbolismo do tambor e a pureza de querer salvar o mundo com sementes. Transformar uma imagem numa existência real, com nome, voz e uma resistência poética que nos comove. Parabéns por esta ilustração literária tão digna e autêntica.