top of page

8 de março - Dia Internacional da Mulher

  • Foto do escritor: joaquimgouveia06
    joaquimgouveia06
  • 27 de fev.
  • 10 min de leitura

A IGUALDADE QUE AINDA OBRIGA A LUTA MUITO EXIGENTE



Para assinalarmos no nosso site o Dia Internacional da Mulher, que se comemora a cada 8 de março, ano após ano, convidámos três mulheres da nossa comunidade setubalense para falarem delas, das suas causas, das suas, lutas, das realidades, da sua importância e, afinal, da sua continuada caminhada para uma emancipação efetiva no mundo. Lígia Águas (diretora da Biblioteca Municipal de Setúbal), Marlene Caetano (presidente da Junta de Freguesia do Sado) e Dina Barco (professora reformada/autora/artesã), identificaram razões, quês e porquês atribuídas à luta no feminino pela descriminação, ainda tão vincada pelo homem. A igualdade de género, paridade, importância, sensibilidade, beleza, estes e todos os atributos e adjetivos que lhes cabem por direito e, tantas vezes, confrontados por misoginias absolutamente contrárias à condição plena da liberdade de que o ser humano deveria ter direito em absoluto num planeta azul em beleza de cor, mas tão cinzento escuro em ideologias cada vez mais perigosas e assustadoras. Seja como for, estas três mulheres sabem fazer a diferença não desistindo, não baixando os braços, pelo contrário, dando um exemplo de coragem vertical de que a mulher é muito importante no equilíbrio da sociedade e do mundo. Haja quem assim, também, o entenda e saiba dar luz, verdade e oportunidade ao ventre que nos trouxe à vida. A todos!

  

Joaquim Gouveia – (Ligia Águas) Se lhe propusesse uma “prova cega” sobre a autoria de um livro seria tarefa complicada perceber se estava perante uma escritora ou um escritor? Que poderá definir a apreciação na leitura, que critérios seriam necessários perceber?

Lígia Águas – Numa “prova cega”, tentar distinguir entre escritora e escritor seria, em grande medida, um exercício artificial e pouco relevante. A literatura não tem género, tem voz, estilo e visão do mundo. O que deve orientar a leitura são aspetos como a qualidade da escrita, a construção narrativa, a profundidade das personagens e a força das ideias, não o género de quem escreve. A boa literatura ultrapassa essas categorias e torna-as, muitas vezes, irrelevantes.

Joaquim Gouveia – (Marlene Caetano) Numa freguesia onde a sua Junta sempre teve como presidente um homem, desde as primeiras eleições autárquicas, sentiu alguma dificuldade ao assumir o cargo de presidente na sua primeira eleição, há pouco mais de quatro anos, ainda com a condição de ser muito jovem? Houve alguma resistência ou, pelo contrário os fregueses aceitaram bem a sua própria escolha eleitoral?

Marlene Caetano – Quando fui eleita pela primeira vez presidente da Junta de Freguesia do Sado, com 31 anos, sendo mulher e jovem, sabia que estava a quebrar um padrão. A nossa freguesia nunca tinha tido uma mulher na presidência. Não senti uma resistência, mas senti o peso das expectativas e a exigência acrescida que tantas mulheres conhecem bem, a necessidade permanente de provar competência, como se a legitimidade não viesse. Automaticamente, com a escolha democrática, principalmente perante quem não é deste território. Por outro lado, esta Freguesia é a minha e aqui senti-me sempre muito acarinhada. No Sado, temos várias mulheres à frente do movimento associativo e de movimentos populares, por isso, hoje, no meu segundo mandato, posso dizer que o essencial é demonstrar que as mulheres não são uma exceção na liderança, mas sim que isso lhes é natural.

Joaquim Gouveia – (Dina Barco) Em tantos milhares de anos de civilização o papel da mulher no mundo ainda tem por consolidar a sua legitima condição de igualdade em relação ao homem. No entanto a mulher tem uma importância vital e devidamente reconhecida na sociedade, que o homem tenta limitar ou negar. No teu entendimento o homem tem medo de perder o seu poder e o controle do mundo, ou virá, ainda, um tempo de plena afirmação da mulher?

Dina Barco – A lei (a Constituição de 1976, no caso português), reconhece a igualdade de direitos da mulher, mas a sociedade nem tanto. Aliás, temo-nos deparado com casos em que são precisamente aqueles que têm de fazer cumprir a lei os primeiros a ignorá-la. Há muitos Netos de Moura, por aí, lamentavelmente. Nos tribunais, mas também nas polícias, nas igrejas, nas universidades, nas empresas… Não sei se o homem tem medo de perder o seu poder no mundo. Perder e ganhar têm implícita a ideia de competir e eu prefiro a união à competição. Penso que, mais do que medo, a questão se pode analisar à luz daquilo que todos dizemos frequentemente: somos animais de hábitos. E mudar padrões de organização familiar, social e laboral enraizados durante séculos não se faz em cinquenta anos, por mais que a nossa urgência o reclame. Temos todos – homens e mulheres – de aprender a fazer diferente, a viver com mais respeito por essa igualdade que defendemos. De pouco servem discursos inflamados, ou a preocupação com o «todos e todas», que se tornou moda se, no dia-a-dia, continuarmos a dizer que «o meu marido ajuda-me muito em casa», ou a olhar de lado para o sujeito que assume as tarefas domésticas e o cuidar dos filhos enquanto a mulher tem um emprego remunerado. São esses ‘pequenos nadas’ que requerem vigilância ativa, de cada um de nós, para irmos mudando hábitos, mentalidades, sociedades…


"A presença das mulheres transforma a política porque introduz experiências e sensibilidades historicamente excluídas dos centros de decisão e poder"


Joaquim Gouveia – (Ligia Águas) A mulher autora quando romantiza tem definida uma maior sensibilidade para falar de temas como o amor, a paixão, a felicidade ou, por outro lado, humanizar com certa sensibilidade finais menos felizes. É uma nova liberdade que a mulher sentiu na sua escrita depois do fim da censura?

Lígia Águas – A ideia de que a mulher autora possui uma “maior sensibilidade” para escrever sobre o amor ou a infelicidade é, em larga medida, uma construção cultural. A sensibilidade não é uma questão de género, mas de individualidade, de experiência e projeto literário. Há escritoras e escritores profundamente líricos, tal como há vozes mais contidas ou analíticas em ambos os casos. Quanto ao fim da censura, esse momento representou uma libertação transversal, não exclusivamente feminina. Naturalmente, muitas mulheres puderam afirmar temas, mas essa mudança insere-se numa transformação social mais ampla. Mais do que uma “nova sensibilidade”, o que emergiu foi uma nova liberdade de expressão.

Joaquim Gouveia – (Marlene Caetano) O que pode ser diferente na gestão autárquica de uma mulher? A sensibilidade, o maior apego às populações, uma participação mais afetiva? No fundo como caracteriza a sua intervenção na presidência da Junta de Freguesia do Sado?

Marlena Caetano – Eu considero que cada pessoa coloca o seu cunho pessoal no que faz, não me revejo numa “gestão feminina” no sentido estereotipado. Acredito sim, que a presença das mulheres transforma a política porque introduz experiências e sensibilidades historicamente excluídas dos centros de decisão e poder. A igualdade de participação das mulheres não é uma questão acessória, é uma questão estrutural da democracia. A minha intervenção na Junta de Freguesia do Sado, assenta nessa visão de proximidade às populações, de defesa dos serviços públicos, valorização dos trabalhadores e atenção particular às questões sociais. Vejo a Junta também como um instrumento de coesão social, que nos permite intervir onde há fragilidades, apoiar associações, promover iniciativas culturais e comunitárias, cuidar do território e das pessoas que nele vivem e trabalham, porque cada território tem as suas particularidades. Enquanto mulher, autarca, e enquanto alguém que sempre esteve ligada à intervenção cívica, valorizo muito o diálogo, a resposta às demandas da população, a transparência e o compromisso.

Joaquim Gouveia – (Dina Barco) Qual deve ser, neste momento, o papel da mulher perante um mundo que lhe é tão adverso, como violento, dirigido pelo homem? Há uma luta interminável por continuar e cumprir?

Dina Barco – Idealmente, essa luta devia ser terminável. Infelizmente, porém, assiste-se a uma preocupante tendência, sobretudo entre os mais jovens, de normalização da violência, desumanização do outro e perda de pensamento crítico (cito a psicóloga Jéssica Andrade, na entrevista que lhe fizeste, a propósito do Dia dos Namorados). Estes comportamentos, associados à misoginia que a extrema-direita exibe sem pudor, causam retrocessos gritantes no que a duras penas se tem vindo a conquistar. Diria, por isso, que o papel da mulher neste estranho mundo tem de ser, cada vez mais, o de unir esforços para combater as ameaças que assombram o futuro dos nossos filhos e netos. De mãos dadas com todos os homens de bem.


"A maternidade, por mais simbólica e fundadora que seja, não protege automaticamente contra a injustiça, porque a raiz do problema não é afetiva, é estrutural"


 

Joaquim Gouveia – (Ligia Águas) Escrevendo a frase, já tão batida e agora à minha maneira, que interpretação dá ao facto de, mesmo que a mulher estivesse no mundo em número inferior ao homem, na verdade o homem é gerado no seu ventre, é seu filho e a mulher-mãe o seu primeiro e maior amor. Apesar desta realidade porque razão a mulher é ainda tão pouco considerada na nossa sociedade onde a violência contra si tem números assustadores?

Lígia Águas - O facto de o homem ser gerado no ventre de uma mulher é biologicamente incontornável, mas essa evidência nunca garantiu, por si só, reconhecimento social, respeito ou igualdade. A desvalorização da mulher não nasce da lógica, mas de estruturas históricas de poder, cultura e mentalidades que normalizaram desigualdades ao longo de séculos. A maternidade, por mais simbólica e fundadora que seja, não protege automaticamente contra a injustiça, porque a raiz do problema não é afetiva, é estrutural. A violência contra as mulheres é uma das expressões mais graves da desigualdade de género. Resulta de padrões culturais, de comportamentos e discursos que desvalorizam ou silenciam. Enquanto estas raízes não forem plenamente enfrentadas, o problema não desaparece.

Joaquim Gouveia – (Marlene Caetano) Apesar dos bons resultados apontados à gestão das mulheres nas autarquias do país, a sua cota no Parlamento, ainda não criou consenso, apesar da Lei da Paridade prever que exista 40% de mulheres eleitas, o que, não acontece neste momento. As mulheres representam apenas um terço dos 230 deputados. Sente que existe descrédito sobre a mulher, ou até um certo tipo de misoginia nesta violação da lei?

Marlene Caetano – A Lei da Paridade foi uma conquista importante, fruto de muita luta. Mas, a igualdade não se esgota em percentagens. Se as mulheres continuam sub-representadas é porque persistem barreiras estruturais. Eu considero que o problema não é apenas o número de mulheres eleitas, mas o modelo social que condiciona a sua participação.  Um modelo social com horários de trabalho incompatíveis com a vida familiar, de precariedade laboral, que sobrecarrega as mulheres com trabalho não pago e que mantém desigualdades salariais. A misoginia continua disfarçada, mas está presente na forma como se distribuem oportunidades, apoios e visibilidade.

Na minha perspetiva sem políticas que valorizem salários, que combatam a precariedade e garantam serviços públicos de apoio às famílias, não existe a igualdade nem equidade nos órgãos políticos que se querem democráticos. Não basta cumprir quotas se não forem combatidas as causas profundas da desigualdade

Joaquim Gouveia – (Dina Barco) O Dia Internacional da Mulher, sendo um símbolo da resistência e condição feminina, de que forma deveria ser assinalado no mundo, para lhe conferir maior autenticidade na promoção do ideal em causa, que será sempre relacionado com a luta pela sua emancipação?

Dina Barco – Há tanta subjetividade no termo ‘assinalar a data’ e tantas variantes culturais e sociais a ter em conta, que não me atreveria a sugerir uma fórmula única para o mundo. Prefiro responder-te com o que se passava nas minhas aulas de Português e/ou de Cidadania. Entre os alunos havia sempre quem fizesse eco do que ouvia aos mais velhos, reclamando que também devia haver um Dia do Homem. E, na verdade, a ‘impertinência’ funcionava como um bom ponto de partida para o que eu tinha em mente: fazê-los olhar criticamente para o que observavam em contextos familiares, levá-los a análises objetivas sobre as ‘relações de poder’ em casa - desempenho de tarefas, partilha de autoridade, equilíbrio de remunerações… Com a ajuda de uns “pozinhos de História”, no final eram eles próprios a concluir que um Dia Internacional do Homem, não fazia falta nenhuma, mas que o da Mulher continua a justificar-se plenamente. Em suma, assinalar a data, para mim, é aproveitar o pretexto para (ajudar a), perceber a sua pertinência e refletir sobre as mudanças que se impõem. Mas não me importo que também me homenageiem com flores, atenção!...


"Simone de Oliveira. Toda a sua história de vida é um exemplo de coragem e contestação..."


Joaquim Gouveia – (Ligia Águas) No seu entender e no que diz respeito ao nosso país, que papel desempenha, afinal, a mulher e que valores têm ainda por conquistar?

Ligia Águas - A mulher desempenha um papel absolutamente central em todos os domínios da sociedade portuguesa, quer económico, como científico, político, cultural e familiar, apesar de durante muito tempo ter sido remetida para espaços de menor visibilidade e poder. A sua presença deixou de ser exceção para se afirmar como parte estruturante do funcionamento da sociedade. Contudo, ainda continuam valores e conquistas por consolidar. Entre eles destacam-se a igualdade efetiva de oportunidades, a eliminação de disparidades salariais, o acesso equilibrado a cargos de liderança, a valorização do trabalho de cuidado e, sobretudo, o combate à violência de género. Mais do que novos direitos formais, o desafio atual é garantir que a igualdade exista na prática e no quotidiano.

Joaquim Gouveia – ( Marlene Caetano) No mundo laboral as coisas não diferem muito no que diz respeito à igualdade de oportunidades e salários. Cerca de 400.000 mulheres auferem apenas o ordenado mínimo e mesmo em situações de remuneração mais avultada, regra geral, ganham um valor sempre inferior ao dos homens. Concorda que a luta pela emancipação da mulher no nosso país ainda faz parte de um ideário que se esperava conquistado em abril de 74?

Marlene Caetano - É evidente que a emancipação está incompleta. Abril de 1974 consagrou na Constituição da República Portuguesa, o princípio da igualdade entre homens e mulheres. Mas a igualdade formal não significa igualdade real. Não há verdadeira libertação das mulheres sem independência económica e sem transformação das condições materiais de vida, essa dimensão está profundamente ligada ao modelo económico e social que defendo. Quando persistem diferenças salariais e maior precariedade feminina, sem dúvida que a luta pela emancipação das mulheres continua a ser uma batalha atual de cada um de nós. Abril, com o contributo invisível de milhares de mulheres que nunca tiveram palco, foi determinante ao consagrar direitos fundamentais, mas muitos desses direitos estão hoje fragilizados ou incompletos na sua concretização. E esta não é uma causa das mulheres é uma causa da sociedade. Da minha parte, continuarei a exercer o meu mandato, assim como na vida, com compromisso, com proximidade e com a convicção de que cada passo dado na defesa e afirmação dos direitos das mulheres é um passo na defesa da própria democracia.

Joaquim Gouveia – (Dina Barco) Quem destacarias como a “mulher-bandeira” na sociedade portuguesa nos dias de hoje, pelo exemplo de coragem, determinação, contestação, fraternidade e demais atributos e ações cívicas ou políticas?

Dina Barco - Referes-te a alguém que a sociedade portuguesa, em geral, reconheça, respeite e admire? O primeiro nome que me ocorre é Simone de Oliveira. Toda a sua história de vida é um exemplo de coragem e contestação, rompendo barreiras, desafiando preconceitos, ousando ser ela própria, apesar das leis castradoras que nos sufocavam. Considero-a uma Mulher verdadeiramente inspiradora.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
 

2 comentários


Rafaelborges33
10 de mar.

Três mulheres fantásticas a abordarem de forma brilhante o que realmente significa ser mulher na sociedade atual. Como diz a Lígia Águas, o desafio agora é garantir que a igualdade exista na prática. Uma bela forma de assinalar o Dia da Mulher, parabéns ao XetubalSite!!!!!!!

Curtir

ritachaves2222
28 de fev.

Setúbal é feita de mulheres incríveis, desde as lides do mar até ao comércio e cultura. Um brinde a todas as setubalenses que fazem a nossa cidade avançar todos os dias. Grande post!

Curtir

Mantenha-se informado(a) com as novidades publicadas no Xetubal Site.
Subscreva a nossa newsletter semanal e acompanhe os conteúdos mais recentes, diretamente na sua caixa de entrada.

Serviço gratuito, com total respeito pela sua privacidade.

Email enviado!

FICHA TECNICA

Edição e coordenação de JoaQuim Gouveia (jornalista)

Produção gráfica: Catarina Branco

Revisora: Ana Santos

Email: xetubalsite@gmail.com

Contacto: 915 568 820

Sede: Setúbal

bottom of page