A manhã em que a Bela Vista despertou incrédula
- Joaquim Gouveia

- 6 de nov. de 2025
- 6 min de leitura
Varredor municipal habitante do bairro foi “milionário” por um dia
O HOMEM QUE ACREDITOU NA SUA PRÓPRIA MENTIRA

Texto – Joaquim Gouveia
Aquela manhã de segunda-feira acordou no bairro da Bela Vista, como se nunca vira por ali. Um despertar diferente para os seus moradores atónitos com a notícia de que dava conta que um dos seus vizinhos era o vencedor único do sorteio do Totoloto, realizado no sábado anterior. Tal feito concedia-lhe o direito a passar à condição de milionário.
Ninguém, nos primeiros momentos parecia acreditar, tal a desdita de pobreza e má sorte que sempre assolou aquele bairro pintado de um amarelo tão desmerecido e triste.
A notícia batia de porta em porta como se anunciasse o fim do mundo para o meio-dia.
Muitos ainda se preparavam para tomar o pequeno-almoço, enquanto outros já se despediam das famílias para sair ao encontro dos seus trabalhos diários. Naquela alvorada apenas faltaram os foguetes e a banda de música.
Na rua os moradores começavam a tentar perceber quem era o felizardo, o novo milionário a quem a sorte havia bafejado, como se estivesse acordado que por ali nunca poderia acontecer algo semelhante.
Depois alguém já sabia que tinha sido o Camané (nome fictício), varredor municipal na Câmara da cidade de Setúbal.
A correria fez-se perceber num ápice dada a pressa com que a vizinhança acorreu a casa do novo “homem ricaço” do bairro da Bela Vista, como muitos já o apelidavam.

A mulher e os dois filhos, pequenos, eram o rosto da felicidade, aquele que tem um sorriso a toda a largura da cara e que, em gente mais pobre, deixa perceber que há falta de cuidado de higiene oral. Mas isso são contas que depois se resolveriam na melhor clínica dentária do país, ou mesmo da Europa, porque vida de rico é outra loiça.
O Camané, não se deixou ver no momento. Tinha saído com o cunhado e mais dois ou três amigos para comprar umas garrafas de champanhe e alguns acepipes para a grande comemoração entre vizinhos.
Como a grande notícia estava restringida ao bairro, a cidade só tomou conhecimento deste autêntico “milagre” em zona conhecida no país como de pobreza e má conduta social, através das estações de rádio onde a novidade ia chegando.
Estávamos em 1988, do século passado (como é bom referir para que não hajam dúvidas…).
O Totoloto, era um novo jogo de apostas da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que se veio juntar ao já tradicional Totobola. A grande novidade consistia no facto de ser de mais simples, bastava acertar em 5 números e ter prémios monetários muito mais avultados. Neste caso o Camané, tinha sido contemplado com cerca de 32 mil contos (único totalista), o que naquele tempo era, na verdade, uma maquia muito considerável para a época (cerca de 6400€, nos dias de hoje).
DA NOTÍCIA BOMBÁSTICA À QUEDA DO CARMO E DA TRINDADE…
Naquela altura era eu jornalista d`“O setubalense”, então jornal trissemanário.
Ao termos conhecimento da grande novidade que se “abatia” de modo tão extraordinário, feliz e imprevisível sobre o bairro mais problemático da cidade e em acordo com o meu saudoso irmão Fernando, que na altura chefiava a Redação, saí em reportagem com o José Luís, o nosso fotógrafo de serviço (hoje com vínculo à Câmara de Setúbal), e, rapidamente, chegámos àquele bairro, onde não tivemos dificuldade em encontrar a residência do “homem do momento”, dado o movimento inusitado de vizinhos que, parecendo as figuras do presépio, se dirigiam para a “cabana do menino Jesus”.
O Camané, ainda não tinha chegado, mas fomos informados que o homem só receberia os jornalistas a partir das três da tarde. Regressámos à Redação convictos de que tínhamos ganho uma grande reportagem para a edição de quarta-feira. Era mesmo para esgotar!
Um pouco antes da hora combinada já lá estávamos, agora, em companhia de outros colegas de jornais da capital como o Correio da Manhã, Diário de Notícias, Tal & Qual, rádios e a própria RTP. Havia Conferência de Imprensa, embora o pobre-rico homem nem soubesse o que isso queria dizer. E percebia-se pela sua humildade condição social mais desfavorecida.
Sentados ao redor da sua mesa na sala de jantar, fomos questionando o Camané, que nos explicava que tinha nascido entre a pobreza vigente nesse tempo na cidade e que nunca havia conseguido melhor emprego que não fosse aquele que de momento tinha, ou seja, varredor municipal.
Era casado e pai de dois filhos menores. Levavam uma vida muito rudimentar, entenda-se.
O homem foi “martelado” com as mais diversas e, por vezes, quase premonitórias questões como “o que vai fazer agora da sua vida”, como era, de todo, expectável… Enfim, uma hora e pouco de “rachar lenha pelos cotovelos”. Ainda bebemos uma taça de champanhe para comemorar com o novo milionário português.
De volta à Redação, felizes e com matéria para esgotar a edição da próxima quarta-feira, fomos surpreendidos quando o nosso diretor, o saudoso senhor João Fidalgo (pai do então proprietário do jornal e também já falecido, João Pepe Fidalgo), nos garantiu que o Camané, tinha dado um golpe digno de um autêntico Alves dos Reis, ou coisa no género. É que, afinal, as rádios com base numa informação da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e depois de terem conhecimento da tentiva de burla verificada por um varredor da cidade de Setúbal, confirmavam que, realmente, o apostador milionário era da nossa cidade, mas morava na avenida Jaime Cortesão, perto da Farmácia Portugal.

Ora, ora não são todos os dias que acontecem coincidências tão fora da caixa… É que o prémio saiu mesmo em Setúbal e isso levou a que todos acreditássemos na mentira do Camané, que nem ele próprio deu por isso, porque toda a gente o felicitava. Há coisas realmente…
Naquele momento não só voltou a cair o Carmo e a Trindade, bem como os Jerónimos, a Torre de Belém, e a Fortaleza de S. Filipe. Parecia um balde de água muito fria que nos caía em cima.
Lembro-me que telefonei, de imediato, para a Santa Casa de Lisboa, onde me confirmaram a morada do verdadeiro vencedor e garantiram que iriam diligenciar no sentido de apurar responsabilidades junto do tal Camané.
O CAMANÉ AINDA FOI RECLAMAR O PRÉMIO
Mas o acontecimento não se fica por aqui.
Ora então expliquemos o que se passou e da forma como o Camané, acabou por acreditar na sua própria mentira que o levou à sede da Santa Casa, em Lisboa, a exigir o “seu” prémio.
Para quem ainda se lembra, os boletins de apostas naquela altura tinham duplicado e eram certificados numa máquina manual. No meio tinham um químico que servia para passar os números colocados no boletim principal que ficava em posse de quem o registava e era entregue ao apostador, a cópia produzida através desse químico. E os números que apareciam na cópia (iguais aos do original, claro), ficavam marcados como se tivessem sido escritos a lápis.
Ora foi isso mesmo que levou o Camané, a ter a inédita e bem urdida ideia de transformar a sua cópia numa aposta ganhadora. Foi fácil.
Confessou, depois, que chegou a casa na madrugada de domingo (o sorteio era às 19 horas de sábado, com transmissão televisiva), e como já estava um pouco aquecido como se fora um balão de conhaque, conhecedor que já era, também, dos números sorteados, pegou na sua cópia, apagou os números do seu palpite e colocou, a lápis, os números vencedores. Depois foi dormir e deixou a cópia em cima da mesa da sala. O crime estava a andar de patins porque a ideia era que fosse a mulher que desse pelo registo “vencedor”. E assim aconteceu. Ela levantou-se um pouco mais cedo e ao reparar no duplicado em cima da mesa, comparou com os números do sorteio e…”eureka”, estamos como nunca estivemos,,, milionários!
Acordou o homem em alegria, dançaram, festejaram com os filhos e deram alarde aos vizinhos. Era o crime perfeito que só ele sabia.
Mas, pelos vistos, isso é coisa que os maiores especialistas em criminologia, dizem que não existe e, neste caso, não falharam nesse saber.

No entanto o mais insólito desta rocambolesca história digna de um filme de HitchCok, ainda está por contar.
Sem se dar conta que a mentira havia sido desmontada, Camané, entendeu que o que é de César, a César pertence. Ora combinou com o cunhado e foram, na terça-feira seguinte, logo cedinho, diretos a Lisboa, à sede da Santa Casa, reclamar o prémio dando como prova a cópia rasurada. Pior a emenda que o soneto. Entraram numa verdadeira boca do lobo e o Camané, acabou em tribunal, com um processo por tentativa que deu origem a uma sentença com pena suspensa.
O Bairro da Bela Vista regressou à normalidade, o amarelo dos prédios ficou tão desmerecido como antes e o pobre Camané, que afinal, nunca deixou de o ser, regressou à limpeza das ruas da cidade.
Os seus pensamentos após tão disparatado episódio, guardou-os para si e, no fundo, talvez tenha sido a melhor opção. É que se até os banqueiros dão os seus golpes, um Camané, varredor de ruas também não terá, pelo menos, o direito à mesma audácia? Dá que pensar…


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