A Recordação do Amola Tesouras
- Carlos Cardoso

- 16 de jul. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 8 de out. de 2025

Hoje de manhã, ao olhar pela janela, as memórias da minha infância vieram de novo ao de cima, trazendo consigo a frescura da primavera que começa a despedir-se e o calor do verão que já se aproxima.
Recordei aquelas épocas em que as trovoadas esporádicas traziam uma intensidade à rotina dos miúdos como nenhuma outra. A recordação que tenho do amola tesouras é uma dessas lembranças que nunca se apagam, um eco do passado que é bom revisitar.
Lembro-me de como a rua era o nosso reino. Brincávamos nas calçadas e na estrada, aproveitando cada raio de sol ou cada gota de chuva que caía. As nossas tardes depois da escola eram uma sinfonia de risos, mergulhadas em jogos que pareciam não ter fim. Jogar à bola com os rapazes da vizinhança, desafiar amigos a um jogo de bugalho, ou até mesmo andar de bicicleta, tudo isso fazia parte do pedido que tantas vezes fazía.
“Mãe, posso ir brincar?”.
No entanto, havia sempre uma ameaça à vista e não silenciosa, o som característico do amola tesouras, o nosso “vilão” desta história.
Recordo-me bem daquele homem que morava na rua Antonio Maria Eusébio, pois que a minha escola o Conde Ferreira era bem perto, e que, com o seu aparato de madeira e a roda de amolar, transitava pelas ruas da nossa cidade, levando consigo uma tradição que parecia estar a desaparecer.
Enquanto muitos dos seus concorrentes já se deslocavam em bicicletas, o amola tesouras que conhecia era mais rústico, destacando-se pela forma como girava a pedra de amolar com o pé. Havia algo de fascinante e ao mesmo tempo intimidante na sua figura, quando ele aparecia, as facas, tesouras e até guarda-chuvas eram rapidamente mandados afiar e arranjar pelas mães, que se mostravam relutantes em proceder ao seu abandono. Em tempos de consumo moderado, a ideia de deixar um objeto que poderia ser consertado tinha um peso diferente.
O som do amola tesouras ressoava pela vizinhança com um toque inconfundível: “prrrriiiiiii, prrriiiiiii, prrrimmm, prrroo”, um sinal de alerta que todos nós conhecíamos bem. Assim que a melodia chegava aos
nossos ouvidos, sabíamos que a liberdade de brincar na rua estava a segundos de escorregar entre os dedos. O céu ou já estava ou começava a encobrir-se de nuvens, e as mães, astutas como sempre, já se preparavam para a ladainha da proibição, dizendo.
“Não saias, vai chover e eu não te quero molhado!”
Naquela época, a nossa maior aventura para sair de casa seria, quem sabe, ir à rua apenas para levar algo a afiar, uma faca ou uma tesoura, numa missão rápida de recato e eficiência.
O tempo passou, e hoje, quando voltei a recordar tudo isto, o que mais me impressiona são os ecos daquele tempo.
Hoje, ao olhar pela janela, vi o amola tesouras passar pela minha praceta. O seu som soou novamente, e, curiosamente, as nuvens começaram a acumular-se, trazendo consigo a tão esperada chuva. E, nesse momento, percebi que, de certa forma, o ciclo se repetia.
A vida continua como era quando eu era pequeno, e as recordações permanecem vivas, a aquecer o coração.
Nota: Hoje os meninos já não brincam na rua, nem com sol, muito menos com chuva.


Comentários