A Rua Major Afonso Pala
- Joaquim Gouveia

- 22 de out. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 23 de out. de 2025
Setúbal, outono 1968. Rua Major Afonso Pala.
Esta rua, que ainda existe liga os largos de Sto. António e da Nª. Sra. da Conceição, em plena baixa da cidade. É estreita, sem sol e muito fria.
Numa das pontas a casa onde eu habitava, por cima da colchoaria do meu avô, o Ti Chico colchoeiro.
Era miúdo, entre os 6 e os 7 anos. Aluno na primária do bairro Salgado, na turma da professora Fernanda Brito. Todos os dias de semana ali entrava às nove e cinco da manhã e saía à uma e cinco da tarde. Regressava a casa, almoçava. Saía um pouco para brincar e retornava para fazer os trabalhos que a professora nos obrigava após a aula.
Todos os dias me encontrava com uma vizinha, a Maria Rosa. Não me lembro como nos conhecemos, nem de outros pormenores que o tempo acabou por apagar. No fundo já lá vão cinquenta e alguns anos...
Sei que nos encontrávamos à porta de sua casa e falávamos um pouco. Sei lá sobre o quê. Ríamos e parecíamos felizes numa amizade de mulher e menino.
A Maria Rosa era uma senhora engraçada. Pelo que me lembro não tinha muito porte mas a sua cara estava sempre muito pintada. Acho que era muito bonita. Lembro-me dos olhos esverdeados como os da minha avó Natividade. Era mulher para os seus quarenta e poucos anos.
Naquele tempo brincávamos nas ruas da cidade. Não havia ladroagem, nem raptos que se desse conta. Por isso as nossas mães estavam descansadas. Como eu nem me afastava da nossa rua não havia problema. Passava pela colchoaria do meu avô a quem dava mais um beijinho e depois ía ter com o meu amigo Viseu, com quem brincava toda a tarde.
O Viseu era um mocetão. Alto, cheio, bonacheirão mesmo. Cara larga e rosácea. Um sorriso estampado. Excelente compincha.
No Largo da Nª. Sra. da Conceição trabalhava o meu pai na Sapataria Mercado do Calçado, mesmo em frente aos estúdios fotográficos de mestre Américo Ribeiro, que cumprimentava todos os dias. Aliás ainda lá tirei algumas fotografias. Gostava muito daquele senhor, sempre solícito, simpático, muito afável no trato. Conhecia-nos bem.

O senhor Américo Ribeiro, na porta do seu estúdio fotográfico Cetóbriga
Também não havia muito trânsito naquela rua. Apenas as berlindas que transportavam os caixões do armazém da Associação de Socorros Mútuos, para os velórios e as carroças do lixo de tração animal.
Lembro-me que uma vez entrou na rua um carro preto enorme e portentoso. Transportava o jovem gigante moçambicano Gabriel Monjane, que atuava num dos circos da Feira de Santiago, Era o homem mais alto do mundo e pernoitava na Pensão Vitória, que ficava na nossa rua.
A minha vizinha ás vezes trazia-me um chocolate, outras dava-me uma moedinha de cinco tostões.
Eu achava que a Maria Rosa era uma pessoa generosa.
Pegava nos cinco tostões que ela me dava e corria pelas ruas da baixa em direção à Pastelaria Capri, onde comprava um gelado Supermaxi da “Olá”.

Naquela altura a “Olá” oferecia-nos em cada gelado um bonequinho da série televisiva “O Carrossel Mágico”. Lembro-me do Franjinhas, do Saltitão (tornicotim-tornicotão), do Tio Juvêncio e da vaca Rosália. Mais: se o pau do gelado tivesse o símbolo da “Olá” queria dizer que estava premiado e que tínhamos direito ao próprio Carrossel Mágico, em cartão descartável para montarmos e brincarmos.
Tudo parecia uma maravilha e, por isso, sinto muitas saudades dos meus tempos de infância.
O meu pai calçava com saber os clientes que lhe entravam na sapataria. Era amigo de toda a gente.
Lembro-me das vistosas montras que fazia com os sapatos e, no natal, com as fitas de cores decorativas, chuva de prata e balões.
Na colchoaria reuniam-se os amigos do meu avô. Muitos eram músicos porque ele também o era na Sociedade Capricho Setubalense. Tocava trombone de varas. O meu avô era um autêntico compêndio da baixa da cidade. Conhecia os pormenores como ninguém e à medida que ia enchendo os seus colchões com a palha falava pelos cotovelos.

O meu avô Chico é o terceiro da direita com o seu trombone nas mãos
A minha avó era modista. Para além de confecionar para a família fazia vestidos para a vizinhança e para os circos que vinham a Setúbal. Tinha umas mãos de fada para a costura.
Ao lado da nossa porta de casa ficava o armazém de loiças e outros apetrechos do senhor Caetano, um homem alto, magro, de olhos azuis, voz colocada e simpático.
A nossa rua era um recanto muito interessante até porque a pensão Vitória, ali atraía muita gente de todas as paragens.
As saudades não são daqueles tempos de pouca riqueza e de obscurantismo. As saudades são da infância, dos meus 6,7,8 anos onde a fantasia se sobrepunha a qualquer mais imodesta realidade.
As saudades são da minha rua Major Afonso Pala, onde todo o meu mundo me abraçava de uma só vez e a uma só voz. Tempos de criança e brincadeiras.


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