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A Vareja

  • Foto do escritor: Ana Acto
    Ana Acto
  • 16 de jul. de 2025
  • 3 min de leitura

"A morte, não é anónima nem singular.

Morre junto, cada um que amou quem partiu."


O corpo jazia leitoso no caixão. 

Um silêncio mórbido preenchia a sala fria

Três pessoas permaneciam na igreja a velar a falecida. 

O único movimento era de lábios que se mexiam monocórdicos, mecânicos, em orações decoradas a primor.

Uma varejeira quebra o silêncio, corre toda a igreja e o som do bater das suas asas, ganha uma proporção descomunal.

Inquietante, irritante, desconcertante...

O cheiro das flores penetra-me nas narinas, intenso. Curioso, como o cheiro das flores se transforma de acordo com a ocasião. 

As velas velam o corpo, tentando trazer alguma luz à alma. Olho-as, a chama outrora de fogo quente, é agora eléctrica, fria, informal.

A vareja continua na sua demanda de sair dali, correndo pela imensidão da igreja.

E o seu som rouba a paz, a concentração adequada ao momento.

Alguém diz “devia matá-la” e nem sei bem porquê, dou por mim a responder “aqui não, estamos na igreja”.

Como se o acto em si fosse mais pecaminoso por ser ali.

Ouvem-se os pássaros lá fora, é primavera, tento abstrair-me da vareja e concentrar-me nessa melodia .

Está frio, todas as igrejas são frias, vazias.

Mas cheias de calor quando alguém, uma alma que seja entre, cheia de FÉ. 

Entram novos familiares, pegam no ramo de alecrim, molham na água benta e salpicam o corpo para o benzer e purificar. 

Olho as imagens que adornam o altar, representações da vida do Salvador, doridas, tristes.

As estátuas que representam os santos, devem ter já largas dezenas de anos, desgastadas pelo tempo.

Alguém abriu a porta, a vareja finalmente saiu.

O som irritante foi substituído pela troca de condolências, murmúrios e lágrimas. Olho os semblantes pesados, de olhar distante, talvez recordando a vida, o sorriso da falecida. 

Também eu a recordo, uma mulher alta, de sorriso meigo e olhar carinhoso, sempre a conheci assim e assim deixou herança na sua descendência. 

Olho as coroas e palmas, com os cartões de sentimentos. 

Recordo a conversa na florista de manhã, “Quer um cartão para escrever?”, respondo que não é necessário, o cartão acaba por ficar para a família ler. Levo as flores, o que conta é a minha intenção. Agora penso na contradição que disse.

Verdade, ela já não lerá o cartão, mas de igual modo também não verá as flores.

Sim, apenas a nossa intenção conta e cada um a demonstra do seu modo.

 A morte é um fim de uma etapa, e um recomeço.

Cada povo tem seus rituais de despedida, uns choram a morte, outros celebram a vida.

Os mais próximos sentem a perda com mais intensidade, os outros, a aceitam como algo que faz parte.

A família junta-se vinda de nem sei onde, pessoas que passam anos sem se ver, primos, tios, primos de primos, filhos de outros.

Olho para o senhor dos passos, carregando a cruz com ar sofredor, e recordo minha tia Irene que partiu cedo, cedo demais, uma das irmãs diz-me que lhe vai acender uma velinha, que quando ela estava doente pedia-lhe que o fizesse e agora depois de ter partido, era incapaz de lá ir sem o fazer.

 Honramos a memória dos que amamos, cada um do seu modo.

Uns mantêm tradições e rituais, outros apenas lembranças com amor.

A morte, não é anónima nem singular.

Morre junto, cada um que amou quem partiu. 

 
 
 

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