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A verdade, como sabemos, incomoda...

  • Foto do escritor: Mendonça Costa
    Mendonça Costa
  • 29 de dez. de 2025
  • 2 min de leitura

Garagem dos Belos uma demolição penosa


 

A antiga garagem de camionagem, à Avenida 5 de Outubro, que muitos designavam, com familiaridade teimosa, Garagem dos Belos — não era apenas um edifício. Era uma pausa no tempo. Um daqueles lugares onde a cidade respirava devagar, entre partidas e regressos, entre o cheiro a gasóleo antigo e a humidade das madrugadas.

Ali cruzavam-se  histórias que nunca chegaram a conhecer-se: trabalhadores de mochila gasta, soldados de licença breve, mulheres à espera, homens que partiam sem saber se voltavam. As paredes, marcadas por décadas de uso, sabiam mais da cidade do que muitos arquivos municipais. Tinham ouvido promessas, despedidas e silêncios.

A sua demolição não é apenas a queda de betão e ferro. É mais um gesto apressado de uma modernidade que confunde progresso com esquecimento. No lugar do que foi vivido, expande-se agora um amplo espaço,   vazio,  asséptico,  sem  memória — e que  talvez nunca venha a ter…

No espaço agora nu, brevemente se levantará um moderno edifício de habitação e serviços. Dar-lhe-ão o nome de “Muralha”. Talvez por inspiração na antiga cintura amuralhada da cidade, que por ali passava e ali perto entroncava num baluarte a que chamavam do Socorro. A evocação histórica é curiosa: onde antes a muralha defendia, hoje projeta-se um volume que delimita; onde houve proteção coletiva, instala-se agora a funcionalidade privada. Os nomes, por vezes, dizem mais do que os projetos...

Dizem-nos que é preciso avançar. Mas avançar para onde, se vamos deixando para trás os lugares que nos ensinaram a ser cidade? A Garagem dos Belos não era bonita no sentido turístico da palavra. Era verdadeira. E a verdade, como sabemos, incomoda.

Agora resta o pó.

E resta-nos a obrigação de recordar à gerações mais jovens aquele importante local de uso coletivo, intenso e marcante.

  Porque uma cidade que apaga os seus marcos quotidianos — os que não aparecem nos postais — corre o risco de se tornar apenas cenário. Bonito, talvez frio e vazio..

Setúbal perde hoje um espaço. Amanhã pode perder um pedaço de si.

 
 
 

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