Alexandrina Pereira

A TUA IRONIA E CÁUSTICA PROVOCAÇÃO PODIAS AINDA HOJE DEDICÁ-LAS À NAÇÃO

Nunca tinha pensado nisso, mas este convite para escrever algo baseado no hipotético encontro com Bocage, espicaçou a minha imaginação e penso que, a acontecer, a nossa conversa oscilaria entre o fascínio da poesia e uma imprevisível e acutilante ironia, também ela poeticamente adocicada. Começo por imaginar que encontraria Bocage à porta de uma vulgar tasca, ou vê-lo-ia passar com andar apressado e olhar atento , aborvido nos seus pensamentos e que nem repararia em mim. Atrever-me-ia a chamar por ele? Ah, se o fizesse e ele parasse e me olhasse, certamente me curvaria perante o maior poeta da minha cidade. Como decorreria então a minha conversa com Manuel Maria Barbosa Du Bocage? É que os anos passam, o mundo gira e tudo muda, e para um homem com ideias muito à frente do seu tempo, um critico feroz que odiava a tirania, que viveu os meandros da guerra, mas que era ao mesmo tempo um pacifista e poeta apaixonado, seria interessante dizer-lhe que a evolução foi tanta, que o muito por que ele lutou para que a luz da razão se erguesse perante as injustiças, levá-lo-ia a escrever de novo poemas que fossem o seu grito de revolta contra a hipocrisia, tal como os versos eternizados nas páginas dos livros que nos deixou. Ficaria surpreso quando lhe dissesse que hoje, qualquer um de nós carrega uma biblioteca numa “caixinha de bolso” e até, através dela, é possível falar com alguém do outro lado do mundo. Porém, meu caro Bocage, com este avassalador crescimento da tecnologia, digo-te, com tristeza, que a sabedoria dos homens não cresceu ao mesmo ritmo da evolução das máquinas: trocámos as conversas de um grupo de amigos à volta da mesa de uma taberna, por milhões de pessoas que discutem, sem se conhecerem, atrás de máquinas que os tornam invisíveis, quais cobardolas que vociferam aquilo que frente a frente não teriam coragem de dizer. Conheceste a vida militar em terras longínquas, viveste a Revolução Francesa com todos os horrores que existem em todas as guerras, mas se vivesses estes novos tempos perguntar-me-ias se a raça humana já fazia jus à sua condição humana, se os tiranos e os conflitos terminaram, e a minha resposta deixar-te-ia desolado. Neste meu tempo, as ameaças à Humanidade são feitas através de armas capazes de destruir cidades inteiras num abrir e fechar de olhos. Lamento meu amigo, mas os poderosos “donos do mundo”, continuam ainda mais cruéis e ambiciosos. Apenas mudaram as caras, porque o discurso e a acção continuam a ser tão estúpidos quanto no teu tempo. Tu, que tanto criticaste a ambição dos Homens nos teus poemas satíricos, que escreverias agora? Provavelmente terias que inventar novos adjectivos.
Neste encontro imaginário, senti que Bocage tinha algo a dizer depois do que eu lhe contei. Dei-lhe a palavra: “Então, os homens de hoje, com toda a sabedoria ao seu alcance, continuam a acender as velhas fogueiras da ignorância? Se as máquinas voam, se o universo se instalou na ponta dos dedos, se o mundo mudou assim tanto, porque razão persistem na estupidez? Bem sei que a mente dos tiranos não muda quando a ambição se sobrepõe ao humanismo, e por isso, se eu voltasse a viver, certamente continuaria a escrever as minhas sátiras tanto ou mais incisivas hoje do que antes, tal como quando as dirigia aos frades e aos ministros do meu tempo.”
Antes de terminar este “dia em que me encontrei com Bocage”, quis dar-lhe notícias de Setúbal: A cidade transformou-se, sem no entanto perder a essência do Sado e da Arrábida que tão bem conheceste. A antiga Praça do Sapal é hoje a Praça do Bocage, onde a tua estátua de mármore domina o centro, e estás rodeado de cafés e de pessoas oriundas de várias partes do mundo. A casa onde nasceste, na Rua Edmond Bartissol, é hoje um museu dedicado à tua vida e obra e tem o teu nome: Casa Bocage, mantendo assim, bem viva a memória da tua poesia, da tua vida de boémio e de poeta irreverente.
Setúbal não te esqueceu. É a única cidade do país que assinala o seu dia com o nome de um poeta, celebrando assim o dia do teu nascimento (15 de Setembro, se bem te lembras). O teu nome já não está associado apenas às anedotas brejeiras, mas é principalmente reconhecido como o de um dos maiores poetas de Portugal.
Antes da “despedida”, perguntei-lhe timidamente: Posso mostrar-te um poema que te dediquei?
Não tenho a tua ARTE mas…aqui vai:
Passaram-se muitos anos, é verdade,
Mas a tua ironia e cáustica provocação
Podias ainda hoje dedicá-las à Nação
Que diferente do teu tempo, só tem a Liberdade.
O erotismo, que tu tanto propalaste
Nos muitos sonetos que deixaste por aí
(e com os quais tu te consagraste)
Afinal…dizem tão pouco de ti!
Levam a que se diga sem verdade
Que apenas de erotismo tu escreveste
Quando na realidade tanto fizeste
Para que Portugal vivesse a Liberdade.
Por erro, (sabe-se lá de quem ou porquê)
És Bocage satírico , burlesco e erótico
Já para não falar do absurdo que se lê
De um Bocage banal, vulgar e anedótico
Erros de informação e má memória
Que alguns teimosamente vão mantendo
Para mim és o Bocage de uma história
Que Setúbal respeita e vai enaltecendo.
Alexandrina Pereira
(o texto não obedece ao novo acordo ortográfico)

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