Amizade sem lealdade não é amizade
- Carlos M. Cardoso

- 6 de nov. de 2025
- 3 min de leitura

Sempre acreditei que a amizade é uma das formas mais puras de amor que o ser humano pode sentir. Mas aprendi, também, que sem lealdade ela não vale nada. A amizade que não é leal não é amizade é conveniência, é interesse disfarçado, é presença enquanto der jeito.
A lealdade é o alicerce de qualquer relação verdadeira. É o que distingue o amigo do simples conhecido, o companheiro do mero conviva. Um amigo leal não é o que te dá palmadinhas nas costas em todos os momentos, é aquele que, quando erras, te olha nos olhos e diz o que tens de ouvir, não o que queres ouvir. É aquele que te defende mesmo quando não estás presente, que te protege até quando discorda de ti. Porque a lealdade não se mede nas palavras ditas, mas nas atitudes tomadas quando ninguém está a ver.
Infelizmente, hoje o conceito de amizade anda gasto. Chama-se “amigo” a quase toda a gente, ao colega das redes sociais, ao vizinho com quem se troca duas palavras, ao conhecido que está por perto enquanto há proveito. Confunde-se convivência com confiança, e depois admira-se a desilusão quando a vida mostra quem é quem. Há quem só saiba estar quando tudo corre bem, quando surgem as dificuldades desaparecem como se nunca tivessem existido.
Um amigo verdadeiro não te julga, mas também não te ilude. Fala contigo de frente, não pelas costas. Fica quando o resto do mundo se afasta, não porque lhe dá jeito, mas porque sente que deve. E é nessa hora, quando tudo treme, que se vê o que é amizade e o que era apenas aparência.
Com o tempo percebi que a lealdade não se impõe nem se pede, revela-se. Há quem goste muito de usar a palavra “amizade”, mas poucos entendem o peso que ela carrega. Um verdadeiro amigo não te vende, não te troca, não te usa. Está porque quer estar, não porque precisa de estar. E isso, nos dias de hoje, é coisa rara.
Ser leal não significa concordar sempre. Pelo contrário, o amigo leal é aquele que te confronta quando estás a ir pelo caminho errado, mas fica ao teu lado enquanto o corriges. É quem se cala quando o silêncio é o que mais ajuda e quem fala quando a tua teimosia precisa de travão. A amizade não se mede pelos elogios, mede-se pela coragem de dizer a verdade.
Tenho por hábito dizer que a lealdade é a forma mais silenciosa de amor. Não precisa de ser anunciada nem de ser exibida. Vive-se nos pequenos gestos, nas presenças discretas, na palavra certa dita no momento exato. E quando a vida te testa, como testa sempre, é aí que se percebe quem realmente caminha contigo.
Quem não é leal hoje, amanhã será o primeiro a virar-te as costas. Por isso aprendi a valorizar quem fica sem precisar de ficar, quem ajuda sem pedir nada em troca. A esses chamo amigos. Aos outros, apenas conhecidos de passagem.
A amizade verdadeira é um pacto invisível de confiança e respeito. É o conforto de saber que, aconteça o que acontecer, há alguém que não te abandona. E quando se encontra uma amizade assim, deve-se cuidar dela como se cuida de um tesouro, porque é disso mesmo que se trata, de algo raro e precioso.
E se és tu esse amigo leal, não mudes. O mundo pode chamar-te ingénuo, mas quem vive com lealdade vive em paz. E essa paz vale mais do que qualquer interesse.
Porque, no fim de contas, amizade sem lealdade é como uma casa sem alicerces, pode parecer bonita por fora, mas ao primeiro abalo desmorona-se. Um verdadeiro amigo não se mede pelo tempo que está ao teu lado, mas pela firmeza com que permanece quando tudo o resto desaba.


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