Ao Raio X...
- Joaquim Gouveia

- 23 de abr.
- 4 min de leitura
Não há festa sem o Jorge. O Jorge é a festa!
TÁ TUDO NICE!

Há cantores que nascem com uma fibra muito própria. Mesmo sem holofotes, letras a dourado e passadeiras vermelhas irradiam um brilho tão intenso que não passam indiferentes a quem anda por perto. Fosse o saudoso retratista Américo Ribeiro, a fotografar Jorge Nice, certamente, optaria por uma sépia com o mar por fundo , um sorriso aberto e uma guitarra nas mãos do artista.
Jorge Nice já conquistou a cidade, já faz parte dos seus hábitos, dos seus movimentos e de algumas das suas estruturas. É, indiscutivelmente, um dos nossos com direito a cidadania plena e cartão de bons costumes.
Radicou-se por aqui há 24 anos trazendo as suas cantigas, uma forma muito própria de estar e uma simpatia que convenceu os setubalenses.
Hoje não há festa sem o Nice. Ninguém o dispensa, todos o querem.
Atrás de si seguem legiões de fãs incondicionais que já o viram dezenas de vezes, sabem as suas cantigas e ajudam à festa.
Razão que explique tal popularidade o cantor só a encontra na sua simplicidade.
“Falo e canto para todos e sobre todos. O público reconhece isso e sente-se especial”, explica num tom pausado e sereno como quem percebe que a tranquilidade é sempre a melhor conselheira do sucesso.
“Em Lisboa, onde vivia – continua – era apenas mais um, era um número. Aqui sou uma individualidade, tenho nome e vida própria e é disso que gosto”.
Para si essa é também a diferença entre ser vitoriano e benfiquista, por exemplo. “Epá – atira decidido – ser vitoriano é ser muito, mas mesmo muito especial. Os gajos do Benfica e do Sporting, não são mais que números, não sabem o que é o clubismo, nem o bairrismo. Aqui a gente aprende a ter amor às causas e às coisas”.
Há algum tempo atrás recebeu um prémio de mérito vitoriano entregue pelos veteranos do clube numa cerimónia digna de registo.
“Eu até nem tinha clube. – confessa sem pruridos – Quando vim para Setúbal, fui morar perto do café Palpites, onde se organizavam excursões para ir ver o Vitória. Achei graça à iniciativa e comecei a frequentar as excursões. Isso concidiu com a final da Taça de Portugal, que ganhámos ao Benfica. Hoje sou um vitoriano ferveroso, adoro o Vitória e, pelos vistos, o Vitória começou a lembrar-se, também, de mim e a convidar-me para cantar no Estádio do Bonfim, nos dias de jogos. Foi uma empatia completa. Apesar da condição atual do clube da cidade, Jorge Nice, não perdeu o encanto e o amor ao seu Vitória.
Antes de se mudar para a nossa cidade Jorge Nice, já a conhecia das pescarias que fazia no rio na companhia dos pescadores de Setúbal. “Sempre adorei pesca e habituei-me a gostar desta cidade “, explica. Aliás, eu acho que não há muitas cidades assim. Os presunçosos e vaidosos tinham muita dificuldade em se adaptar por estas bandas”, está convencido e recorda “aqui toda a gente dá os bons dias”.
Com os pescadores aprendeu uma linguagem muito própria e universal que passou a utilizar nas suas canções e nas abordagens com o seu público. Frases com “apá soce”, “tá empachado”, “salga isse”, “tá a montes” ou mesmo “ganda classe”, são hoje mais conhecidas e caíram na gíria do seu público.
“As pessoas tratam-me com a humildade que acho que mereço. Não sou artista de redomas nem de camarins. Gosto de estar entre o público que me vê e escuta”, admite.
Jorge Nice trouxe canções novas á cidade. Sabia que havia repertório com muitas cantigas de outros tempos que falam de Setúbal e que são cantadas por grupos de música popular locais. Preferiu construir as suas próprias canções. Temas como “Os golfinhos”, “Bela Vista”, “Visigodos”, “A brasileira da Rua das Fontaínhas” e “Alma charroca”, são hoje verdadeiros ícones do seu espetáculo e dos dois discos que tem editados. Ao clube da cidade ofereceu o tema “Vitória, para sempre”.
Não quer ser apenas mais um, mas também não se sente especial. “Tenho consciência de que as pessoas gostam de mim e isso aconteceu de forma natural e progressiva”, explica.
A sua inspiração vem do rio, da serra, do Parque do Bonfim, da beira-mar, enfim dos locais que gosta de frequentar. É como se tivesse nascido aqui. – diz convicto – “Escrevo de forma natural e apaixonada”.
Agora que os meses de verão se aproximam a passos largos é hora de aceitar convites e ajeitar uma agenda que, certamente, uma vez mais não lhe irá dar descanso. “Não quero ser um puxa saco. Aceito os convites com naturalidade. Se as pessoas gostam de me ouvir pois lá estarei com elas”, remata.
Certo é que Jorge Nice é um caso sério de popularidade numa cidade de cantores e muitas cantigas. E o seu êxito já ultrapassou mesmo as fronteiras de Setúbal. Os concertos já se sucedem por toda a região.
Quanto a uma carreira nacional o cantor sabe que se tiver que acontecer será como tudo na sua vida, “com naturalidade”!
Há cantores que sabem o que cantam e… o que falam!


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