Aprendendo a Ler, escrever e contar mesmo com o óleo de fígado de bacalhau...
- Rui Canas Gaspar
- 6 de nov. de 2025
- 3 min de leitura

Depois de levar umas bombadas de ar a chama do fogareiro a petróleo adquiriu mais força, fazendo aquecer rapidamente a água que se encontrava dentro da antiga panela de alumínio, a tal que o habilidoso amola-tesouras já tinha consertado.
Em Troino, na pequena habitação, sem casa de banho, uma grande bacia de esmalte estava já colocada no chão, a meio da cozinha, e a água quente que viria da panela iria temperá-la proporcionando uma temperatura bem mais agradável.
O rapazinho estava despido e começava a tiritar quando a mãe o ajudou a entrar naquela grande bacia branca de água tépida para lhe dar o banho semanal.
No dia seguinte começava uma nova vida para a criança e os pais estavam orgulhosos porque o seu filho iria frequentar a escola e, muito provavelmente, quando fosse crescido, deixaria de ter de andar na dura vida do mar, sempre parca de ganhos e com incerta segurança.
Lavado, vestido com a melhor roupinha que tinha lá em casa, penteado e com o cabelo brilhando devido à brilhantina que a progenitora lhe tinha passado pelos cabelos, levando a tiracolo uma bolsa feita de sarrapilheira a que a habilidosa mãe bordara um bonequinho, lá foi ele a caminho da Casa dos Pescadores de Setúbal, para o seu primeiro dia de aulas.
Dona Lucinda, a professora, envergando bata branca, recebeu as crianças naquela sala de aulas onde um grande quadro negro afixado na parede serviria para serem escritas as primeiras letras e números que as crianças iriam aprender.
Num canto da parede uma grande vara, ajudaria a professora a apontar o que se escrevia no quadro e em cima da mesa estava uma grossa régua de madeira que às vezes era utilizada para ajudar a fazer riscos e outras estaria destinada às mãos dos meninos menos bem comportados, ou com mais dificuldade de aprendizagem.
Naquelas paredes austeras pontuava também o cruxifixo de madeira de mogno com a imagem de Cristo, em metal, ladeado pelos quadros com as imagens do Chefe do Estado, Oliveira Salazar e do Presidente da República, Craveiro Lopes.
Os meninos ficariam logo, desde aquele primeiro dia ,a conhecer as regras e, quem se portasse mal levaria umas reguadas para aprender que ali era local de trabalho. Brincadeira era no intervalo, quando fossem correr e saltar no “lago”, como chamavam ao Parque das Escolas, que viria a adquirir posteriormente a designação do popular cantor José Afonso.
E foi assim, num ambiente próprio daquela época distante, do Estado Novo, que milhares de crianças aprenderam a ler, escrever e contar e ficaram a saber que o seu país tinha uma vasta rede de caminhos-de-ferro e decoraram aqueles nomes esquisitos, desde a linha do Setil, até à do Sul; teriam de saber também os nomes dos reis de Portugal, bem como os dos rios e montanhas do seu país e muitas outras coisas sobre aquelas distantes províncias ultramarinas a que, entretanto, chamávamos nossas.
Era de facto um manancial de conhecimento sobre um enorme e imaginário país que deixava as crianças boquiabertas, elas que nunca tinham saído de Setúbal, nem visto televisão, ou cinema e cujo mundo se limitava a pouco mais do que o seu bairro de Troino!
Quando o Inverno chegava, formavam fila junto à porta da cantina da escola e uma senhora, de colher de alumínio numa mão e frasco na outra, fazia-os engolir aquele mal cheiroso e desagradável líquido trazido pelos pescadores bacalhoeiros, lá de longe, da distante Terra Nova, o então famoso "óleo de fígado de bacalhau". Horrível!
Este óleo combatia o raquitismo, era engolido rapidamente e de seguida para neutralizar o paladar era servido também um gomo de laranja.
E foi ali na escola do ensino primário que funcionava no edifício da Casa dos Pescadores, que eu aprendi a ler e a escrever, uma escola onde nunca houve necessidade de colocar os meninos à janela com enormes orelhas de burro, feitas de papel para que toda a gente soubesse que não tinham aprendido a lição ou se teriam portado mal como, aliás, era prática do regime.
Neste momento do ano em que muitas crianças já frequentam a escola, gostaria de endereçar os melhores e respeitosos agradecimentos às D. Lucindas e a todas as outras professoras e professores que, diligente e zelosamente, ensinam as nossas crianças a ler, escrever e contar e muitas vezes são mais que professores, substituindo-se mesmo, por força das circunstâncias, aos próprios progenitores.


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