Artista espanhola radicada em Beringel, ativista humanitária e ambientalista
- XetubalBlog
- 6 de out. de 2025
- 6 min de leitura
Atualizado: 7 de out. de 2025
"Sou de cada lugar que me acolheu"!

A artista espanhola Mili Vizcaíno, esteve em Setúbal, por ocasião da abertura do último Festival Internacional de Teatro da nossa cidade, numa organização do TEF, onde realizou um pequeno recital nos claustros do Convento de Jesus, deixando um testemunho da imensa qualidade que imprime numa carreira pejada de sentido quer nas palavras, como nos cruzamentos musicais entre o flamenco e o jazz, por exemplo. Descobriu o caminho pela arte da música com apenas oito anos. através do canto. A partir de então aceitou o desafio e, ao longo de todo o seu crescimento, envolveu-se em várias vertentes como o próprio canto, o multi-instrumentismo, a composição e a autoria de letras. Hoje é professora de música e canto e dedica-se, também, à descoberta de novas sonoridades e soluções harmoniosas. Nasceu em Badajoz e está radicada em Beringel, aldeia a caminho de um Alentejo, de planícies, descobertas e misticidade. É casada com um músico afegão e, por isso, sabe e denuncía junto a ele a perda dos direitos das mulheres daquele país a contas com as lei impostas pelos talibãs. Sente-se uma ativista humanitária e, ao mesmo tempo, uma artista com preocupações ambientais. Leva a sua música ao mundo com a simplicidade dos que sabem que o palco é lugar, também, de manifestações e partilhas. Propus-lhe a entrevista que a seguir publicamos.
entrevista - Joaquim Gouveia

Joaquim Gouveia – Parece haver implícito no teu percurso o desejo de chegares mais profundo, de conheceres os desafios que esta arte da música ainda tem por descobrir…
MV - Sempre preciso de aprender mais, acho que nunca vou deixar de amar a aprendizagem.
JG - Ao longo desta tua tão importante e reconhecida carreira artística, que fatores foram decisivos e te impulsionaram para te tornares tão rica em experiências dispares e diversas, como é o exemplo da música Carnática. Que “sabores” te são agradáveis extrair em cada momento onde te permites experimentar algo de novo?
MV - Não sinto que a minha carreira tenha sido importante e reconhecida, mas a minha razão de fazer música é o facto de acontecer através dela e, sobretudo, de manifestar pensamentos que acho útil compartilhar, independentemente do sucesso, uma palavra tantas vezes malinterpretada e vazia. O que me atrai da música desde sempre é um estado de espírito, de comunhão, que só ela consegue produzir. Sempre prestei atenção àquelas músicas que fui encontrando através de pessoas de diversos lugares do mundo que tive a sorte de ir conhecendo e reconhecendo. A minha relação com diferentes culturas musicais tem chegado como parte do meu percurso de vida, expandindo a minha identidade mais além de uma simples etiqueta musical. Se houver um sabor a destacar, seria a terra, a raiz, a união com a natureza de cada lugar que respira explícita, ou implicitamente, dentro da música.
JG - Tens um percurso fantástico com presenças múltiplas em festivais, projetos, no ensino, num currículo perfeitamente “alucinante”. Afinal, como te defines e te apresentas ao mundo?
MV - Como uma pessoa que faz música e que quer lutar através dela por uma situação ecosocial mais justa, com muita vontade de aprender e de partilhar.
JG - Ainda te sentes uma espanhola em Portugal, nomeadamente no Alentejo, onde vives, ou essa questão não tem significado numa cidadã do mundo?
MV - A raiz é algo precioso e eu amo a minha raiz, que é Badajoz, no “Alentejo espanhol”. Somos uma continuidade na nossa bela jangada de pedra. De todos modos, sinto que sou de cada lugar que me acolheu e que ficou em mim, que se tornou eu.

JG - Teres conhecido o teu companheiro, um afegão, também, cantor e multi-instrumentista, parece ter sido muito importante para ti, pelo que possibilitou descobrires um país fascinante e, ao mesmo tempo, divulgar e denunciar através das músicas tradicionais afegãs a situação dramática que vivem, neste momento, as pessoas de lá, especialmente as mulheres daquele país. Sentes-te uma artista, também, com responsabilidades humanistas?
MV - O meu companheiro, Ustad Fazel Sapand, é afegão, concretamente de Herat. Ele é um grande artista (cantor e multi-instrumentista), professor de música persa e indiana e literatura persa, além de luthier de instrumentos persas e indianos. Tem sido uma grande influência para mim, tanto a nível pessoal quanto a nível artístico, trazendo para a minha vida uma sensibilidade e conhecimento sobre aquele país fascinante que é o Afeganistão, e abrindo às pessoas à sua volta uma porta para participar na luta na preservação da sua cultura musical em tempos em que a música foi proibida ali, destacando a situação especialmente dramática das mulheres às quais foi-lhes proibido até o direito de falar em público. Por tudo isto, estamos a trabalhar juntos na divulgação do repertório de músicas tradicionais das mulheres afegãs. Hoje em dia, ponho a minha voz ao serviço das causas sociais e ecológicas. Neste presente tão desigual, acelerado e cruel que vivemos, como não entregar-se a elas sendo consciente de que se tem um microfone na mão?
JG - O teu álbum “Verde mi sangre, rojo tus hojas”, tem uma forte componente em defesa do ambiente, na descoberta dos seres e dos próprios ecossistemas, propondo-nos uma viagem pelos desafios ambientais e, sobretudo, pela oportunidade de percebermos que a natureza somos mesmo nós…
MV - Quando defendo a Natureza, sou “parte da floresta a defender-se a ela própria”, como expressa John Seed. Acho que deveríamos normalizar essa maneira de sentipensar.
JG - Celina da Piedade é uma das artistas com quem tens partilhado muita interação musical. Que outros nomes tens conhecido e com os quais já trocaste experiências e conhecimento em Portugal?

MV - A Celina, não é só uma artista maravilhosa, mas também uma pessoa que consegue criar uma comunidade sensível à sua volta, e é uma amiga muito querida. Também gostava de destacar o pianista, compositor e produtor Rui Filipe, o meu genial colega do grupo La Barca, do qual tenho aprendido muitas coisas além de ter dois discos com ele: “Materia Mestiza” e “Verde mi Sangre, Rojo tus Hojas”. Desde que cheguei a Portugal, tenho colaborado com artistas como Gustavo Roriz, Ruca Rebordão, Máximo Bruno Ciúro, Gabriel Godoy (todos eles da banda D’Alambre), Vitorino Salomé, Renato Júnior, Salvador Sobral, Ana Santos, António Bexiga e Paulo Ribeiro, entre outros muitos.
JG - Como defines a música portuguesa e toda a sua comunidade artística (cantores, músicos, autores, compositores)?
MV - Como uma grande família diversa, rica, sensível e aberta a outras expressividades. Penso que nós, espanhóis, temos muito que aprender desta magnífica comunidade. Mesmo assim, em ambos os lados da raia (como em muitos outros países), há certo individualismo não só dos músicos, mas também dos outros estratos da indústria musical, a qual não é saudável a muitos níveis, e normalmente, nem sequer temos essa consciência. Como aponta o ecomusicólogo Jeff Todd Titon, o sector cultural deveria imitar a Natureza, na sua gestão. No mundo natural, ao contrário do que se interpreta habitualmente, prima a colaboração sobre a concorrência. .
JG – O Alentejo, inspira-te?
MV - Mesmo muito, sinto-me em casa, gosto das suas pessoas, da sua cultura, da sua calma, do seu senso de humor. Isso sim, sinto muita pena de ver os monocultivos superintensivos de oliveiras que sentenciam a morte ao montado, que é um ecossistema estável criado em colaboração com o ser humano e que é uma parte fulcral da cultura local e da sobrevivência de muitas espécies. Espero que restauremos quanto antes o que o lucro roubou aos nossos campos nos nossos Alentejos, que sejamos capazes de ver que a riqueza é a nossa biodiversidade e que a ideia do progresso acaba num precipício que é evitável, pois há muitos possíveis caminhos e só temos que os desenhar juntos. O naturalista espanhol Joaquín Araújo, uma grande figura na cultura e no ativismo ecológico no nosso país, considera que a Extremadura, poderia ser um exemplo para a Europa, que estamos a tempo de preservar os nossos ecossistemas se pusermos a riqueza natural por encima do lucro. Eu estenderia essa observação ao Alentejo, que é a nossa paisagem natural gêmea. Também as nossas culturas são gêmeas, temos multitude de músicas, orações, ditos populares e um longo etcétera em comum. Sim, o Alentejo é também a minha casa.
JG - O que nos propões quando assistirmos a um espetáculo teu? Que mensagem, ou atitude poderemos esperar que nos chegue aos olhos, aos ouvidos e ao coração?
MV - Proponho que depois do concerto façam alguma coisa para ajudar a Natureza, como, por exemplo, apoiar algum centro de recuperação de animais selvagens com voluntariado, dinheiro ou materiais. A mensagem é a esperança de criar mais empatia com aqueles mais além de humanos, conseguir reconhecer-se em cada um deles.

AGENDA DOS PRÓXIMOS ESPETÁCULOS
23 de outubro: "Bale Bale"_Badajoz
25 de outubro: Jazzeres Band_Zafra


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