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A "velhinha" Capricho já tem 158 anos!

  • Foto do escritor: Joaquim Gouveia
    Joaquim Gouveia
  • 23 de nov. de 2025
  • 8 min de leitura

“SERÁ SEMPRE A NOSSA VELHINHA "


Amílcar Caetano, antigo membro da coletividade recorda tempos e gente que a cidade bem conheceu e que levaram a Capricho aos écrans televisivos



A velhinha Capricho Setubalense assinalou no último dia 22 do corrente mês, 158 anos de vida repleta de associativismo, cultura e recreio. Com sede na baixa da cidade, viveu momentos de grande fulgor ao longo da sua história, sobretudo, enquanto a baixa era um importante centro populacional e de comércio tradicional, em tempos em que Setúbal, ainda se limitava a um espaço bem mais reduzido na sua expansão, essencialmente, urbanística. A sua Banda de Música foi sempre um ex-libris e as famosas revistas à portuguesa, os grandiosos bailes de época e diversos outros eventos marcaram uma história que nos últimos tempos tem perdido dinâmica, por um lado face à quase inexistência de habitantes na baixa e, por outro, ao desinteresse quanto à prática do associativismo devido às novas propostas que a tecnologia sugere, em termos de novos e aliciantes desafios, aos mais jovens. No entanto há, ainda, vida e atividade na Capricho. Amílcar Caetano, antigo membro desta coletividade onde desenvolveu várias funções, com destaque para o teatro de revista à portuguesa, recorda um tempo feliz para si e para os que faziam, também, parte daquela equipa de amadores e dos grandes nomes que ali se destacaram durante a história da “velhinha” da bandeira azul e branca. “Muito se deve à carolice de toda a gente”, a homenagem do Amílcar, nesta conversa que lhe propusemos e que, também, aproveitamos para assinalar o aniversario da Sociedade Filarmónica Capricho Setubalense.


Joaquim Gouveia – Nos dias de hoje falar da “Velhinha”, já não é timbre que a população, facilmente, associe à Sociedade Filarmónica Capricho Setubalense. Os tempos avançaram, a baixa está moribunda em termos habitacionais e as últimas gerências da coletividade, viraram o seu rumo noutros pontos para que a bússola doassociativismo também aponta. Estás de acordo com esta visão que te proponho?

Amílcar Caetano – Completamente. A “Velhinha” passou de uma coletividade familiar, onde os sócios se encontravam para conversar, trocar ideias, discutir temas de carácter social, cultural e desportivo ou, simplesmente, para passar o tempo em jogos de tabuleiro ou cartas, para uma realidade diferente. Por velhice ou morte, por terem deixado de habitar na baixa ou, simplesmente, por desmotivação, muitos foram-se afastando. Contudo, a Sociedade manteve viva a sua função original: formar músicos e sustentar a existência da sua Banda de Música.


Amílcar Caetano, um rosto bem conhecido da "velhinha"
Amílcar Caetano, um rosto bem conhecido da "velhinha"

JG - Contudo num percurso de 158 anos o propósito do associativismo não perdeu o seu sentido, apesar de uma frequência de atividades dentro da coletividade e participação em eventos vários seja menos evidente. Sobretudo a Banda de Música Filarmónica, ainda mantém o espirito da tal “velhinha”…

AC – Os interesses dos jovens — e não me refiro especificamente aos jovens executantes da banda ou aos alunos da escola de música — são hoje outros. As novas tecnologias, o acesso muito mais rápido à informação e o uso das redes sociais, ao longo destes últimos 20 anos, foram ditando que o papel da coletividade como agente social e cultural se concentrasse mais na ampliação da escola de música. Com a adoção de outros instrumentos igualmente apelativos — o piano, as cordas, entre outros — além dos tradicionais instrumentos de sopro e percussão das bandas, a coletividade ganhou novas formas de viver o espírito associativo e atraiu outros interesses culturais, que já não passam necessariamente pelo teatro amador, e pelo convívio de mesa no salão de sócios ou no bar.

JG – Neste momento serás um dos mais antigos sócios e membros da Capricho. Começaste a ter uma participação muito ativa a partir dos teus 30 anos de idade, essencialmente, na coreografia e participação nos grupos de dança das revistas à portuguesa, onde também foste ator. Foi um desafio novo na vida de um jovem. Que mais pulsava na Capricho, que te levou a querer participar de forma tão entusiasta, alegre e ativa? E como recordas e defines hoje esse tempo tão teu?

AC - Fui convidado por um amigo que, na minha juventude, acompanhou a minha passagem pela escola ballet, na Olegário Mariano, então ligada à Gulbenkian. A Capricho, estava a ensaiar uma revista da autoria do nosso saudoso Rui Mesquita, com cenários do João Mangas e produção do, igualmente saudoso, maestro Azoia, e precisavam de um coreógrafo. Fui apresentado ao maestro Azoia e comecei a trabalhar de imediato na revista. Não havia dinheiro e o Rui, não tinha figurinos, por isso comecei a criá-los à medida que desenvolvia as coreografias. Daí até passar a fazer um pouco de tudo foi um ápice. Quando aceito um desafio é porque, de alguma forma, ele me diz algo e, a partir daí, envolvo-me com paixão. A Capricho estava prestes a comemorar o aniversário e ofereci-me para organizar uma exposição sobre a coletividade desde a sua fundação. Nesse processo, a paixão transformou-se num verdadeiro amor: a leitura dos livros de atas, as conversas com os sócios mais antigos e conhecedores da história da casa, as pequenas histórias que marcaram os destinos da Capricho, a investigação de documentos e fotografias que ajudassem a transmitir esse património a quem o desconhecia… Tudo isso fez com que a Capricho, passasse a ser a minha segunda casa. Pouco tempo depois, a minha mulher tornou-se a primeira mulher a presidir à coletividade e eu passei a ser, sem falsa modéstia, o braço direito do maestro Azóia, com quem desenvolvi, muitos projetos, além revistas, e uma amizade para a vida. Ainda hoje tenho muitas saudades dele, das suas conversas e dos seus ensinamentos.


JG - Lembrar as figuras do maestro Azóia, Laureano Rocha, José Henriques, os irmãos

Marrafa e até o próprio António Ferrão (hoje o nosso conhecido Toy) a sua irmã Leonor e o pai Ferrão, a Dulce Pereira e tantos outros. Eram esses nomes que, conjuntamente com os famosos bailes e a banda de música que davam o corpo verdadeiro à denominação tão carinhosa de “Velhinha”. Concordas? Que memórias guardas dessa gente que deu nome, brilho e glória à Capricho, nesses tempos, entre os anos 70 e 90, do século passado.

AC - Só tenho que concordar. Lidei com todos eles, exceto com o Marrafa, que tinha falecido pouco antes, e também não cheguei a conviver com o Toy, que fez as delícias da Capricho, enquanto criança, antes de emigrar contudo, deliciei-me a ouvir contar sobre a passagem deles. Mas com todos os restantes aprendi e cresci muito. Aprendi, sobretudo, a distinguir o bem do mal, o que é bom, mediano ou francamente mau e, ao mesmo tempo, recebi muitas lições que me ensinaram o verdadeiro sentido da humildade e quanto é importante a empatia entre as pessoas para viverem no coletivo. Passaram por mim e pela Capricho, homens e mulheres “carolas”, que, sem pedir nada em troca, foram determinantes para a vida e história da “Velhinha”, quer nas Direções, na Banda ou no Grupo Cénico. Em 1986, a Capricho renasceu graças a um verdadeiro milagre, obra de gente que arregaçou as mangas e não deixou a coletividade morrer, nem apodrecer juntamente com o edifício debilitado que eles próprios reconstruíram. Foi a maior manifestação de amor que alguém pode dedicar a uma causa, e que testemunhei. Ninguém entra na nossa vida sem deixar marcas, lições que moldam a nossa personalidade e a forma como caminhamos no mundo. Foram tempos que já lá vão, ficaram no passado, mas todas essas pessoas continuam a viver em mim. E são tantas!

JG – As revistas à portuguesa eram garante de sala cheia durante vários meses.

Recordo-me do antigo programa televisivo “TV Palco”, apresentado pelo saudoso Igrejas Caeiro, dar destaque a essas revistas, entrevistando autores, atores e músicos. A fama andava por aí… Hoje dava muito jeito um “TV Palco” em cada estação, pelo menos, nas generalistas, verdade?

AC - Verdade. As revistas da Capricho, até à morte física do maestro Azóia, eram uma referência, não só na cidade, mas em todo o país. Enchíamos a sala às sextas-feiras, aos sábados e aos domingos à tarde, e ainda fazíamos digressões pelo país. Tínhamos atores e atrizes de grande qualidade, que nada ficavam a dever aos grandes profissionais. Com o Azóia, não havia a distinção entre “amadores” e “profissionais”. Ele exigia sempre o máximo de cada um de nós, sem se importar se vínhamos cansados do trabalho ou não. E essa exigência, aliada ao rigor e ao amor que colocávamos em tudo, fazia com que as  nossas revistas fossem verdadeiros sucessos de público.

JG– Apelando à nostalgia, de que tens mais saudades da tua participação na Capricho?

AC - Sem dúvida alguma, tenho mais saudades das direções da minha mulher e do Eduardo Areias. Foram mandatos em que se arriscaram muitos projetos socioculturais e em que a Capricho, viveu um dinamismo raro. Foi também um período áureo da Banda, primeiro com o maestro Ferrer Trindade e, depois, com o maestro Eduardo Ferreira. Recordo com muita ternura os bailes temáticos, as celebrações das datas festivas, as passagens de ano, as noites de Carnaval, as noites de fados e de poesia, e até os espetáculos dedicados à descoberta de novos talentos — como aquele em que surgiu, pela primeira vez, a Sara Margarida, então uma criança franzina com o vozeirão que todos hoje conhecemos.



JG – Como atrás elucidei, os tempos são outros, as ideias constroem-se com outras expetativas e a aderência de sócios e participantes nas atividades da sociedade terá outra dimensão, no caso, penso que inferior. Naquilo que é, ao fim e ao cabo, a tua visão do movimento associativo, a Capricho, ainda mantém um espaço largo na importância cultural da cidade? E sendo assim a cidade percebe essa importância?...

AC - Com o surgimento e o progresso acelerado das novas tecnologias, os interesses da juventude transformaram-se. A Capricho, tem procurado manter atividades e manifestações culturais dirigidas a um público próprio, já distante daquelas que referi anteriormente. Mantém, contudo, a sua matriz de sociedade musical, através da Banda e da Escola de Música, áreas muito mais alinhadas com aquilo que hoje é procurado. Se a cidade a reconhece como um agente cultural de grande importância, quero crer que sim. Os tempos mudam, mudam as necessidades e mudam também as vontades. Penso que a Capricho enfrenta agora mais dificuldades em ver o seu trabalho amplamente reconhecido, mas apenas porque, como tantas outras instituições, sofre oimpacto das transformações e dos desafios da atualidade.

JG – Os custos da cultura continuam a ser, exorbitantemente, elevados e os apoios de quem de direito, nomeadamente governamentais, são escassos ou nulos. Uma Tuba, por exemplo pode chegar aos 26.890€, um Contra-Baixo aos 12.590€ e até um jogo de Sinos Tubulares aos 3639€. E depois existem todos os outros instrumentos da Banda, a manutenção da sede, a luminotécnica e a sonoplastia, enfim, manter uma sociedade com estas características em atividade nos dias de hoje é extremamente oneroso. Afinal quando se fala de cultura e, que neste momento, nem sequer há um Ministério que a cuide isoladamente, é como falar da “fava do bolo rei”…

AC - Esse é, de facto, um dos grandes desafios não só para a Capricho, mas para todas as coletividades que mantêm uma banda. Salvam-se algumas que têm estatuto de utilidade pública e outras que, para continuarem o seu caminho, se transformaram em excelentes conservatórios de música, como é o caso da Humanitária, em Palmela.Mas, ainda assim, tal como acontece com a nossa “Velhinha”, muito deve à carolice daqueles que se dispõem a dirigir os seus destinos, muitas vezes sacrificando a própria vida pessoal.

JG – E agora passados 158 anos é hora de começarmos a chamar à Capricho Setubalense, de a “novinha”?...

AC - Não! Há coisas que não podem mudar, por muito que o progresso avance no bom sentido. A Capricho é e será sempre a nossa “Velhinha”. Não por mero capricho ou tradição vazia, mas porque carrega em si 158 anos de história feita por pessoas que, com acertos e erros, permitiram que ela perdurasse e sobrevivesse a todas as gerações. É uma “Velhinha” jovem, cheia de sonhos e de projetos por concretizar. Assim hajam homens e mulheres que se apaixonem pela sua idade, pela sua história e pela sua alma, e que a deixem viver por muitos mais anos, dando para isso os seus contributos. Por mim farei e estarei aqui para ajudar!


 
 
 

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