Carlos Cardoso

“O AMOR FAZ MUITO BEM À POESIA”

Há desafios que não se recusam, sobretudo quando vêm de um amigo. Foi o Joaquim Gouveia, através do XETUBALSITE, quem me lançou o desafio, imaginar como seria um encontro entre mim e Manuel Maria Barbosa du Bocage.
Aceitei. Mas o Joaquim, não queria que eu escrevesse uma biografia, nem fazer uma análise da sua obra. Queria apenas que imaginasse uma conversa com o homem por detrás do poeta. Afinal, que maior privilégio poderia ter um setubalense como eu do que estar frente a frente com Bocage?
Eu não nasci em Setúbal. Cheguei aqui aos oito anos e foi esta cidade que me acolheu, onde cresci, trabalhei, construí amizades e vivi grande parte da minha vida. Bocage nasceu aqui, em 1765, e levou o nome de Setúbal muito para além das suas fronteiras.
E foi assim que, numa tarde, caminhando pelas ruas da cidade, dei por mim frente a frente com ele.
— Bocage?
Voltou-se.
— Quem me chama?
— Carlos Cardoso.
— E que pretende de mim?
— Conversar. Sempre tive curiosidade em conhecer o homem que existia por detrás dos versos.
Sorriu.
— Isso pode ser perigoso, meu caro. Os poetas são mais fáceis de conhecer pelos versos do que pela vida.
Sentámo-nos.
— Viveu uma vida intensa.
— Nunca fui muito amigo da monotonia.
— Viajou, foi marinheiro, esteve na Índia, apaixonou-se, escreveu, desafiou o poder e chegou a ser preso.
— E ainda assim há quem se lembre mais dos meus versos do que da minha vida.
— Talvez porque conseguiu transformar a sua vida em poesia.
Bocage ficou pensativo.
— Talvez a poesia tenha sido a maneira que encontrei de não deixar morrer aquilo que sentia.
Falámos das viagens, das terras que conheceu e da forma como essas experiências o marcaram.
— Viajar mudou-o?
— Viajar mostra-nos que aquilo que julgamos ser o mundo é apenas uma pequena parte dele.
Depois veio a poesia.
— Quando percebeu que era poeta?
— Não sei se alguma vez decidi sê-lo. Talvez a poesia é que tenha decidido ficar comigo.
E, quase distraidamente, começou.
— “Magro, de olhos azuis, carão moreno…”
Sorri.
— Ainda hoje esses versos fazem parte da memória de muitos portugueses e setubalenses.
— Felizmente. Assim talvez se lembrem de mim por aquilo que escrevi e não apenas pelas histórias que contam.
Falámos de amor.
— O amor fez-lhe bem?
Bocage sorriu.
— O amor raramente faz bem aos poetas. Mas faz muito bem à poesia.
Depois a conversa tornou-se mais séria.
— A liberdade foi importante para si?
O olhar mudou.
— Mais do que importante. Foi uma necessidade.
E acrescentou:
— “Liberdade querida e suspirada…”
— Hoje, também, há quem tenha medo de dizer o que pensa.
— Então os tempos mudaram menos do que imaginava.
Rimo-nos.
Mas havia uma pergunta que queria mesmo fazer.
— E Setúbal?
Bocage olhou em redor.
— Esta é a minha terra.
— Também é a minha.
— Nasceu aqui?
— Não. Cheguei aos oito anos.
Sorriu.
— Então Setúbal, também, o adoptou.
— Adoptou. E tornou-se a minha cidade.
Ficámos alguns instantes em silêncio.
— Um homem pode viajar pelo mundo inteiro, disse Bocage, mas há terras que nunca deixam de viajar dentro dele.
Aquela frase ficou-me.
Já no final da conversa, Bocage perguntou-me.
— E o senhor, também, escreve?
— Escrevi um livro, mas não sou escritor. Deixei apenas por escrito algumas reflexões de vida, para que quem as leia possa, por momentos, parar e pensar no que leu.
— Então escreveu para conversar com quem ainda não conhece.
— Talvez seja isso.
Bocage sorriu.
— Nesse caso, compreendo-o.
Estava na hora de partir.
— Foi um privilégio conhecê-lo.
— O privilégio é saber que, tantos anos depois, ainda há alguém que quer conversar comigo.
— Setúbal não o esqueceu.
Olhou-me uma última vez.
— Nem eu esqueci Setúbal.
E afastou-se.
Fiquei sozinho, a olhar para a cidade que me acolheu aos oito anos.
Talvez aquele encontro tenha acontecido apenas na minha imaginação. Mas, por alguns minutos, não senti que estava diante da estátua, do nome de uma praça ou do poeta dos livros escolares.
Estava diante do homem.
O homem que viveu intensamente, amou, sofreu, viajou, desafiou o poder e transformou as suas experiências em versos.
E percebi que os homens podem morrer, as cidades podem mudar e os tempos podem ser outros. Mas as palavras que nos fazem pensar permanecem.
Bocage continua em Setúbal.
E, naquele dia, tive o privilégio de o encontrar.
Foi, sem dúvida, um dos mais extraordinários Momentos que alguma vez imaginei viver.

Comentários