Crónica ao cair da tarde...
- Alexandrina Pereira

- 29 de jan.
- 2 min de leitura
O Grito das Crianças Pobres:
"Eu Sei! Eu Sinto!"

Em 2014, foi-me sugerido pelo então presidente da Cáritas Diocesana de Setúbal, Prof. Eugénio da Fonseca, que desenvolve-se um trabalho junto de crianças tentando que elas expressassem o que pensam e sentem sobre a pobreza. Aceitei o desafio e, mais uma vez aprendi muito com o que as crianças responderam às duas perguntas que lhes colocava: “O que é ser pobre?” e “O que fazias para acabar com a pobreza”.
Confesso que quando pensei colocar estas duas questões às crianças com idades compreendidas entre os 7 e os 10 anos, já estava certa de que me iria surpreender com o que quer que elas respondessem. A singeleza das suas respostas corresponde à sua pureza de alma e o conjunto das mesmas transporta-nos para uma leitura que oscila entre um sorriso e uma lágrima. Pretendi com a publicação do livro partilhar o que as crianças “sabem” e “sentem” em relação a este flagelo mundial que é a pobreza.
Entre uma escola situada numa grande cidade (EB1 das Areias), Setúbal, e outra numa zona rural (EB do Poceirão), chegaram-me respostas de crianças com vivências totalmente distintas, o que nos permitiu comparar duas formas diferentes de sentir a mesma problemática. Deixo aqui a resposta que foi eleita para constar na contracapa do livro: Pergunta: “O que é ser pobre?” Resposta: “Ser pobre é uma mancha de sumo de cereja marcada na vida, porque quando o sumo de cereja cai na roupa, nunca mais sai dela”. Pensemos mais profundamente nesta resposta de Diogo Caveiro, de apenas 8 anos, aluno na escola Básica do Poceirão. Ele diz-nos o que as crianças pobres interiorizam: “Sou pobre e tem que ser assim! Pobre uma vez, pobre para sempre!”
Mas, tem que ser assim? NÃO! Com que tristeza lemos notícias de que, segundo um estudo recente, em Portugal, 300 mil crianças vivem em risco de pobreza ou exclusão social, com números a aumentar desde 2021, afetando aproximadamente uma em cada cinco ou seis crianças. Este mundo desigual é uma afronta que deixa a minha alma inquieta. A desigualdade global entre muito ricos e muito pobres atingiu níveis críticos que nos envergonham.
Cito Nelson Mandela: “Ainda hà gente que não sabe, quando se levanta, de onde virá a próxima refeição e há crianças que choram com fome”

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