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Crónica citadina

  • Foto do escritor:   Carlos Cardoso
    Carlos Cardoso
  • 29 de jan.
  • 3 min de leitura

OS IMPREVISTOS DA VIDA...



Começo esta crónica com uma frase que encaixa como uma luva no título. Diz-se que é uma das frases mais tristes do mundo e terá sido dita por quem mais fez rir milhões de pessoas, Charlie Chaplin.

“Eu amo andar na chuva porque ninguém percebe que eu estou a chorar.”

Se esmiuçarmos a palavra “imprevisto”, ela remete-nos para acontecimentos súbitos, inesperados, que surgem sem aviso e exigem adaptação imediata. É bonito na teoria. Na prática, nem sempre cola.

Hoje venho falar de um tema que muitos preferem evitar, outros fingem que não existe e alguns até prometem resolver com uma frase de circunstância. Falo dos sem-abrigo.

Recordo-me bem de, no início do mandato, o atual Presidente da República ter dito que ia acabar com este problema. Na altura estavam registadas 4.006 pessoas em situação de sem-abrigo. O resultado está à vista, não só não diminuiu como aumentou de forma brutal.

Entre 2016 e 2025, segundo associações e análises feitas a nível nacional, o crescimento ronda os 260%. Nos últimos anos, os aumentos têm andado perto dos 10% ao ano. Hoje falamos de um número impressionante, muito perto das 16.000 pessoas.

Setúbal não foge a este flagelo. Na cidade estão sinalizadas com cerca de 165 pessoas. Baixo nível de escolaridade, desemprego, ausência de rendimentos, problemas associados à toxicodependência e aos consumos.

Ou seja, os perfis estão identificados, os dados estão sistematizados, os relatórios existem. Tudo muito organizado. Falta só a parte mais chata ou aborrecida, agir.

E aqui entra o jogo do empurra.

As autarquias dizem que a culpa é do Governo, porque é o Governo que devia meter dinheiro e liderar a resposta.

O Governo diz que tem feito tudo e acusa as câmaras de não executarem o que foi prometido.

A 18 de dezembro de 2025, o próprio Governo reconheceu que, nos últimos seis anos, o número de sem-abrigo mais que duplicou, atribuindo esse aumento à falta de ação e à não concretização de estratégias anteriores.

A nova estratégia, dizem eles, vai criar um sistema de alerta e prevenção, com uma plataforma de dados para identificar riscos em todo o território. Traduzindo, mais um sistema. Mais uma plataforma. Como se o problema fosse falta de software.

Fala-se também em aumentar o alojamento de emergência, temporário e no modelo “housing first”, criar um plano pessoal de emprego para cada pessoa em situação de sem-abrigo e reforçar equipas de rua e de saúde mental.

Tudo muito bonito em papel. Tudo já prometido antes. Tudo ainda à espera de sair do PowerPoint.

Enquanto Governo e câmaras trocam culpas, os números continuam a subir.

E não nos podemos esquecer das causas reais, desemprego, precariedade laboral, falta de acesso à habitação e exclusão social. Isto não são acidentes raros. São tendências conhecidas. São problemas estruturais. São bombas-relógio com data marcada.

Perante isto, fica a pergunta incómoda.

Cair na situação de sem-abrigo é mesmo um “imprevisto da vida”?

Ou esta vida já vem a ser mais do que previsível para milhares de portugueses, enquanto quem decide continua a fingir surpresa?

Não estamos a falar de azar. Estamos a falar de falhanço político, de inércia institucional e de prioridades trocadas.

Quando se sabe o que causa o problema, quando se sabe quem está em risco e quando se sabe o que é preciso fazer, deixar tudo como está já não é incompetência, é escolha.

Cada pessoa a dormir na rua é uma derrota do Estado.

Cada número que sobe é um atestado de hipocrisia.

E cada nova “estratégia” sem execução é apenas mais uma desculpa com capa bonita.

Os sem-abrigo não são um imprevisto.

São o resultado lógico de um país que promete muito, faz pouco e se habitua depressa a ver gente a viver e a dormir no chão.

Talvez o verdadeiro imprevisto seja alguém, um dia, levar isto a sério.


 

 

 

 

 

 
 
 

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