Crónica sem hora marcada
- Rafael Rodrigues

- 5 de jun.
- 2 min de leitura
O DIA EM QUE OS KOTAS TÊM LICENÇA PARA SEREM CRIANÇAS

Meus Queridos Amigos,
Chegámos, e já passámos, o 1 de Junho. O Dia da Criança.
Ora aí está uma data perigosa. Perigosa porque nos obriga a olhar para trás e a descobrir uma verdade que muitos tentam esconder com dignidade, óculos escuros e cremes anti-idade, a criança nunca foi embora.
Está ali dentro.
Às vezes escondida atrás das contas para pagar, das dores nas costas, dos comprimidos da manhã e daquela fantástica capacidade que adquirimos de discutir durante vinte minutos sobre o preço das batatas.
Todos nós quisemos ser grandes.
Que pressa tínhamos!
Quando éramos crianças queríamos mandar, conduzir carros, deitar-nos tarde, fazer o que nos apetecesse e não prestar contas a ninguém.
Depois crescemos.
E passámos metade da vida a desejar voltar aos tempos em que a nossa maior preocupação era saber quem tinha escondido a bola ou quem tinha roubado o berlinde mais bonito da rua.
A vida é uma comédia extraordinária. Primeiro queremos crescer. Depois queremos rejuvenescer. E finalmente passamos a gastar dinheiro para parecer aquilo que fomos de graça.
A infância é um estado de espírito. É a capacidade de ainda nos maravilharmos com coisas simples.
É rir de uma asneira bem dita. É acreditar que amanhã pode ser melhor. É olhar para uma poça de água e não apenas para a humidade do passeio.
Hoje, confesso-vos uma coisa. Também é um pouco o meu dia.
Gosto de brincar. Gosto de rir. Gosto de imaginar. Gosto de continuar a acreditar que o mundo pode ser um lugar mais humano.
E sobretudo gosto de não deixar morrer aquele miúdo que ainda vive algures entre Benguela, os sonhos da juventude e as memórias que o tempo não conseguiu apagar.
Talvez a verdadeira maturidade não seja deixar de ser criança. Talvez seja aprender a proteger a criança que continua connosco.
Essa que ainda se emociona. Que ainda sonha. Que ainda acredita nas amizades. Que ainda se espanta com a beleza das coisas simples.
Hoje, portanto, dou folga ao adulto. O adulto anda cansado. Tem andado a carregar o mundo às costas e já merece um intervalo.
Hoje deixo sair a criança. Aquela que corre pelas palavras, salta por cima das preocupações e transforma a poesia numa brincadeira séria da alma.
Porque, no fundo, envelhecer não é acumular anos. É perder a capacidade de brincar.
E enquanto conseguirmos rir, sonhar e fazer disparates com elegância… ainda estamos muito longe de envelhecer.
Um feliz Dia da Criança para todos. Especialmente para os kotas que continuam a fingir que são adultos.


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