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Crónicas da Alexandrina Pereira (Eugénio)

Foto do escritor: Alexandrina Pereira
Alexandrina Pereira
16 de out.
3 min de leitura

Eugénio da Fonseca

 

“OS VALORES QUE NOS APROXIMARAM”


 

Ao escrever as linhas que se seguem, faço um exercício de saudade e gratidão no qual  deixo, também, o reconhecimento por tudo o que Eugénio da Fonseca representou para mim, para Setúbal e para todas as pessoas a quem ele dedicou a sua vida. Sempre pensei que devemos considerar ser um privilégio cruzarmo-nos com pessoas que nos deixam marcas profundas pela sua generosidade e idoneidade moral, e que as mesmas se irão manter para além do momento em que essas pessoas partem definitivamente de entre nós.  Éramos amigos desde há muitos anos e sempre o admirei pela forma como tinha a coragem de manter uma permanente inconformidade perante as injustiças. Quantas conversas tivemos sobre a tão necessária luta contra a pobreza, a exclusão e as desigualdades sociais. Ele não aceitava que a indiferença fosse uma resposta ao sofrimento humano, nem que a dignidade das pessoas pudesse depender da sua condição económica e social. Onde muitos viam dificuldades ele via apenas pessoas. Quando uns encontravam motivos para desistir ele descobria razões para continuar a lutar. Certo dia, numa das nossas conversas em que o tema era o apoio dado pela Cáritas Diocesana de Setúbal, aos sem-abrigo, coloquei-lhe a pergunta: Quantos homens e mulheres que vivem na rua consegue recuperar?  A sua resposta não me surpreendeu: Se conseguirmos recuperar um que seja, já valeu a pena.

Quando em 2001, me “desafiou” a escrever um livro com poemas infantis para que a verba da venda revertesse a favor de uma causa solidária, (Centro de Crianças em Risco), senti o seu entusiasmo e do mesmo comunguei. No prefácio, no livro “Arca de Noé” escreveu: “ Quando a solidariedade deixar de ser para muitos, um sonho e passar a ser uma realidade de todos os dias, o mundo será melhor.” E  porque a nossa iniciativa tinha sido um sucesso volta a convidar-me para outra publicação: “Arca de Noé II”, em apoio às Mães Adolescentes. Deixou inscritas nesse livro as seguintes palavras: “ …vamos fazer do mundo um lugar de justiça e de solidariedade, para que a paz e alegria tomem conta dos corações dos que nele habitam.” Guardo desses tempos não apenas a memória dos projectos que realizámos, mas sobretudo a riqueza humana de uma caminhada partilhada.



Eugénio da Fonseca soube dar continuidade ao pensamento e ao legado de um homem que era a sua grande inspiração: D. Manuel Martins, o eternamente “nosso” Bispo de Setúbal. Tal como ele, Eugénio da Fonseca compreendeu  que a solidariedade não pode ficar pelas palavras, pelos discursos ou pelas boas intenções. Há que ter coragem para  cumprir compromissos, mantendo-nos em permanente inconformidade perante as injustiças sociais. Pelas causas que abraçou, pelas iniciativas que ajudou a concretizar, mas também pela consciência social que conseguiu despertar, devo-lhe muito e Setúbal, também. Tive o privilégio de com ele partilhar muitos projectos solidários e é, também, por isso que estas palavras têm, para mim, um significado especial. Partilhámos preocupações, ideias, desafios e a convicção de que era possível construir uma sociedade mais justa, mais humana e mais fraterna. Guardo desses tempos não apenas a memória dos projectos que realizámos, mas sobretudo a riqueza humana de uma caminhada partilhada. Aprendi com ele que a solidariedade não é um acto ocasional de generosidade, mas uma forma de estar na vida. Aprendi que combater a pobreza não significa apenas acudir às necessidades imediatas, mas também questionar e transformar as condições que a produzem e perpetuam.  Quando me anunciaram a sua morte senti que todos ficámos mais pobres. Mais pobres de uma voz livre, inconformada e objectiva, de uma consciência atenta e de um homem que nunca deixou de acreditar, e que nos deixou a enorme responsabilidade de não permitir que o seu legado se transforme apenas numa memória evocada em momentos de homenagem. A melhor forma de o recordarmos será continuar o caminho que ajudou a abrir, mantendo vivas as causas que defendeu e recusando a resignação perante as desigualdades que persistem na nossa sociedade.

Ter partilhado com Eugénio da Fonseca, tantos momentos de intervenção cívica e de solidariedade, acrescentou-me valores que tento transmitir a outros. Foram esses valores que nos aproximaram. Diz-se que ninguém parte verdadeiramente enquanto permanecer vivo na memória daqueles que com ele caminharam. Quero acreditar que assim é. Acredito que continuará presente em cada gesto de solidariedade, em cada injustiça combatida e em cada esforço para construir uma sociedade mais justa. No seu empenho no Voluntariado deixava muitas vezes para segundo plano a sua própria família, mas na sua Fé Cristã encontrava forças para continuar sempre que algum desalento dele se apropriava. Se eu estivesse junto dele antes da sua morte, ter-lhe-ia dito: Obrigado Eugénio, pela amizade, pelo exemplo e pela vida que colocou ao serviço dos outros.

 

(Por opção da autora o texto não obedece ao novo acordo ortográfico)

 
 
 

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