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Crónicas da Andreia

  • Foto do escritor: Andreia Olim
    Andreia Olim
  • 10 de jul.
  • 2 min de leitura

Quem somos quando ninguém nos está a ver?...


 

Vivemos numa era de exposição permanente. Mostramos o que comemos, onde viajamos, o que pensamos e até aquilo que sentimos. Nunca foi tão fácil construir uma imagem. Nunca foi tão difícil saber o que é real.

Passamos horas a cuidar daquilo que os outros veem. Escolhemos fotografias, editamos palavras, filtramos emoções. Criamos versões de nós próprios que queremos que sejam admiradas, respeitadas ou invejadas. Mas, no meio de tanta preocupação com a aparência, uma questão permanece incómoda: quem somos quando ninguém está a ver?

A resposta não está nos perfis, nos discursos ou nas opiniões que publicamos. Está nos momentos sem audiência. Na forma como tratamos alguém que não tem influência, estatuto ou utilidade para nós. Na honestidade que mantemos quando ninguém descobriria uma mentira. Na ética que seguimos quando a falta dela nos poderia beneficiar.

Talvez o problema do nosso tempo não seja a falta de valores, mas a facilidade com que os transformamos em espetáculo. Defendemos causas, partilhamos indignações e proclamamos princípios. No entanto, quantas dessas convicções sobrevivem quando desaparecem os aplausos? Quantas fazem parte da nossa identidade e quantas fazem apenas parte da nossa imagem?

Vivemos rodeados de métricas: seguidores, gostos, visualizações, comentários. Medimos influência, popularidade e alcance. Mas nenhuma dessas métricas consegue medir o caráter. Não existe algoritmo capaz de avaliar a integridade de uma pessoa. E, ainda assim, é a integridade que determina quem somos.

Há uma diferença profunda entre parecer e ser. Parecer exige manutenção constante. Ser exige coerência. Parecer depende dos outros. Ser depende de nós. E é precisamente por isso que tantas pessoas vivem cansadas: porque sustentar uma imagem é mais difícil do que viver uma verdade.

Talvez devêssemos fazer menos perguntas sobre o que os outros pensam de nós e mais perguntas sobre aquilo que pensamos de nós próprios. Talvez o silêncio da consciência seja um juiz mais exigente do que qualquer opinião pública.

No fim, quando as luzes se apagam, quando os ecrãs se desligam e quando não existe ninguém para impressionar, sobra apenas uma pergunta: a pessoa que mostramos ao mundo é a mesma que encontramos quando ficamos sozinhos?

No fim, não somos aquilo que mostramos quando estamos acompanhados. Somos aquilo que escolhemos quando ninguém nos observa.

E talvez a verdadeira pergunta não seja apenas “quem somos quando ninguém está a ver?”, mas sim: conseguimos viver com essa resposta sem precisar de a esconder de nós próprios?

 

 
 
 

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