CRÓNICAS DA ARRÁBIDA ...*
- Nuno David

- 29 de jan.
- 2 min de leitura
O massacre sistemático do refúgio mediterrânico

As agressões constantes de que vinha sendo alvo nos últimos decénios não podiam deixar calar, apesar dos condicionalismos da falta de liberdade, os brados de protesto. “Apesar do comprovado valor botânico e do significado ecológico que representa, consumou-se nos últimos anos o massacre sistemático do refúgio mediterrânico da Região da Arrábida”, escrevia-se na imprensa nos primeiros anos da década de 70.
Ao contemplarmos hoje a Serra da Arrábida, podemos deduzir aquilo que ela foi. Os exemplos de alguns carvalhos cerquinhos ou carvalho português (Quercus faginea) de grandes dimensões dão-nos uma ideia sobre o que teria sido a grandiosidade da floresta, hoje infelizmente muito reduzida.
Para além do corte feito para obter lenha e carvão, a grande ação destruidora ali exercida durante décadas foi levada a cabo pelas queimadas e pela pastorícia; esta provocando aquelas. Efetivamente, as queimadas eram feitas com o objetivo de eliminar os arbustos e provocar o aparecimento de herbáceas e dos próprios arbustos, que, ao rebentarem novamente, davam ramos mais tenros e, portanto, mais apetitosos para os animais, designadamente cabras, ovelhas e bois. Certo é que as plantas sujeitas a este massacre incessante desapareciam ou transformavam-se, evoluindo para outras formas.
A vegetação que cobre quase a área da Serra da Arrábida não tem paralelo em qualquer ponto do País. É um caso especial de interpenetração da flora mediterrânica no cortejo florístico de tipo europeu, o qual se estende ao longo da costa atlântica até à região da Península de Setúbal. Entre outras representações da flora típica mediterrânica, ali se encontram a oliveira brava (zambujeiro), de cuja evolução resultou a oliveira cultivada, a alfarrobeira e o medronheiro, juntamente com os carvalhais a que se associam, hoje em dia, cistus, urzes e trepadeiras. Estas fazem da mata coberta um emaranhado único no género, perfumado pelo alecrim e outras plantas aromáticas.
É sabido que a floresta mediterrânica há muito vem sofrendo a ação degradante da presença humana, pelo que, em vez de se apresentar com as características próprias do clima que em cada região tivesse constituído, apresenta hoje formas e variedades resultantes dessa ação. Tudo aquilo que mais se aproxima do que teria sido esse tipo de floresta é considerado, logicamente, uma relíquia inestimável que se tem, a todo o custo e obrigatoriamente, de preservar “por tudo”: por nós e pela responsabilidade assumida com a comunidade científica internacional.
(continua na próxima atualização)

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