Crónicas da Arrábida 7
- Nuno David

- 11 de mar.
- 3 min de leitura
Carvalhos que acolhem a natureza

Escrever sobre esta árvore tão nobre estimula-me, por entender que devemos saber mais sobre ela. Assim sendo, o texto que em tempos escrevi e publiquei sobre esta nobre e importantíssima árvore da nossa tão particular flora, é hoje a minha crónica.
As folhas recortadas trespassadas pela luz projetam sombras imponentes, que desde longos tempos povoam os campos de norte a sul de Portugal.
Das frágeis e pequenas sementes guardadas na terra, acontece o milagre, se o homem lhes não tocar. As copas abrem-se em todas as direções num abraço sem fim. É na apetitosa sombra que nos acolhemos quando em dias de verão sentimos calor.
Ali passam as brisas refrescantes dos finais das tardes e no outono, são o abrigo das grossas gotas das chuvas.
Debaixo deles estamos protegidos e quantas vezes sentados no almofadado das folhas em redor e que os muitos ventos os ajudaram a despirem-se para se mostrarem nos invernos.
Os carvalhos, os “Quercus” pertencem a uma grande família, dos quais os sobreiros ainda são “parentes “.
São gigantes, simpáticos e afáveis. Recortam na paisagem formas algo bizarras, outrora muitos mais, florestas grandes que ocupavam muitos dos nossos campos. São importantíssimos por acolherem a natureza.
Vivem abrigados e protegidos uma panóplia de insetos, aves, pássaros e também mamíferos, ginetos, raposas, gatos bravos, veados, lobos e outros que ainda, e felizmente, vivem no norte do país. A força do homem e o afiado machado, derrubaram vezes sem conta muitas destas árvores.
Acentuou - se mais a necessidade de desbravar áreas para encontrar terrenos adequados e destinados às atividades agrícolas, sobretudo a partir da ocupação romana e tudo o que se lhes seguiu na procura de matéria-prima para a construção de diversa ordem. Também na construção, na vida rural, os combustíveis necessários e facilitados, abrindo nos terrenos mais férteis condições para as atividades agrícolas das quais dependia a sobrevivência dos povos. Foram estes os factos.
Ficámos muito mais pobres, restando nos nossos dias pequenas áreas que é urgente defender em nome dos princípios do equilíbrio da natureza, daquilo que ainda resta desses povoados na preservação desta espécie arbórea da região mediterrânica e que é ainda nos nossos dias, o habitat que dá abrigo a muitas espécies de mamíferos, aves, insetos e outros!
Árvore de crescimento muito lento. Dar tempo ao tempo, para que se tornem adultas e centenárias. Quercus é o nome científico dos carvalhos e não são apenas árvores, são sempre paisagens multicores que atravessam as estações do ano.
Na primavera as folhas alegres, de cores suaves e de tenros verdes espalhados pelas copas gigantes, agora de verdes intensos no verão, para depois as folhas secas, amareladas e castanhas, sem vida, caírem num Inverno ventoso e assim definitivamente tiritarem de frio.
Depois, pacientemente, aguardam um tempo melhor para que se inicie o ciclo, a primavera. Que histórias guardam elas nos seus corações? Tantos testemunhos vivos no conforto das sombras, na rugosidade dos troncos, o coração dos viajantes que ali se acoitaram por bem ou por mal, uns fugitivos, outros de consciências tranquilas, todos muito cansados.
Quantas caravanas de comerciantes, feirantes, gente do circo ou simples camponeses ali repousaram? Também amores começaram e se desfizeram. Quantas batalhas aconteceram e profundas tristezas debaixo das suas copas. Gentes ricas e pobres mendigos, estes que nada mais tendo, lhes aproveitam as sombras. Refrescam-se na água límpida e transparente que corre ali ao lado no ribeiro. Os cansados que deles se serviram e se retemperaram de canseiras, quase mortos de sono é à sua sombra recuperam forças, valeu a pena. Carvalhos distintos e altaneiros refrescam o ar, amenizam o ambiente, resistem ao fogo, formam galerias tão densas de estranhas sombras, intensos e escuros verdes onde tantos se acoitaram quase sempre por bem. São assim estas árvores.
(continua na próxima atualização)

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