Crónicas da Arrábida 8
- Eng. Nuno David

- 8 de mai.
- 3 min de leitura
“Arrábida/ Palco de Atividades Indesejáveis (1)”
(É uma análise clara de como se pensava e agia nesses difíceis tempos, nomeadamente nos finais dos anos 60, décadas de 70 e 80, aliás, como todas as crónicas já publicadas).

A existência da ponte a funcionar desde o seu dia de inauguração, que aconteceu a 6 de Agosto de 1966, abriu a ligação rodoviária para a margem sul do Tejo, vindo provocar um aumento da afluência de visitantes à Serra da Arrábida aos fins de semana e sobretudo ao Portinho.
A procura de locais aprazíveis nas imediações da capital, desejo aliás legítimo de todo o citadino, deveria, contudo, ser enquadrado e condicionado. O analista na época escrevia que, junto da encosta que circunda a baía, abrem-se atalhos, assentam-se arreais, fazem-se piqueniques, assam-se sardinhas. De vez em quando a madeira arde e com ela, mais um arbusto. O fogo e o fumo afugentam os insetos e o equilíbrio ecológico rompe-se ainda mais. Mas a maravilha do Portinho, a sua água e o seu sol, atraem milhares de pessoas e já não chegam os piqueniques, são necessários restaurantes.
No início dos anos 60 a guerra no então ultramar português, obrigou a treinos das nossas tropas, encontrando na Serra da Arrábida, condições favoráveis para esse efeito.
A mata coberta, as falésias do Fojo e a baía do Portinho, serviram de palcos paraexercícios militares. Quem passasse pela mata, encontrava de vez em quando entre as flores, cápsulas de munições. Aliás, uma grande zona nas proximidades do Fojo, estava atulhada de invólucros de munições, muitas delas ainda por explodir. Foi no início dos anos 90 que a então direção do Parque Natural da Arrábida, promoveu a limpeza e segurança da zona, contando naturalmente com o trabalho inestimável dos militares e dessa forma, conseguiu-se repor a segurança aos cidadãos depois de ser usado aquele espaço de treino no tempo que teve que ser utilizado.
Pergunta-se, com a necessidade dos exercícios, não existiriam outros locais onde pudessem ser feitos, sem atingir tão rudemente a natureza a preservar?
E o massacre da serra da Arrábida, não termina ainda.
Uma fábrica de cimento vai progressivamente comendo a extremidade oriental da serra, para além de lançar os detritos no estuário, onde se verificam já camadas desses inertes, que cobrem literalmente os fundos, prejudicando a fauna e flora aquáticas.

Para além de ter sido destruída muita vegetação, expunham grande parte das restantes aos efeitos perniciosos de quantos iam passando e sem o mínimo de respeito pelo santuário, a que tinham, contudo, direito, alterando o local com a deposição de lixos, arrancando vegetação, fazendo fogueiras e alterando a fisionomia do território. Mas que importância tinha isto comparado com o pretensodesenvolvimento turístico defendido pelo então Ministério das Obras Públicas?
Os apelos e as soluções para a salvaguarda da natureza, eram sistematicamente ignorados por alguns governantes mais desejosos de agradar a uma elite escolhida, mantendo uma fachada de requinte progresso. É assim que nesta corrida se abre próximo à mata do Solitário, relíquia de vegetação local, uma nova ferida, a pedreira de brecha da Arrábida, no Alto Jaspe. A chaga aumenta à medida que a pedra vai sendo extraída, destruindo a vegetação e, consequentemente, alterando a paisagem.
Alguns anos passaram, até que a nova luta, na qual tomou parte a Liga para a Proteção da Natureza fizesse parar a exploração da pedreira. Mas aquilo que poderá considerar-se uma verdadeira mazela, ficará sempre a atestar o desrespeito do homem pela natureza.
(continua na próxima atualização do site)


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