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Crónicas da Arrábida (estórias)

Foto do escritor: Eng. Nuno David
Eng. Nuno David
16 de out.
4 min de leitura

OS RATERES DA RENAULT 4 L E O JEEP QUE FIZ TOMBAR NUMA DAS ALDEIAS DA SERRA



Cheguei apressado e muito feliz ao gabinete do Parque Natural da Arrábida, em Setúbal, no fim da tarde de 8 de novembro de 1977. Fiz nesse dia 27 anos.

O Arquiteto Fernando Pessoa, Presidente do Serviço Nacional de Parques Reservas e Património Paisagístico, deu-me posse como técnico ao início dessa tarde, na sede desse organismo em Lisboa, na Rua da Lapa, n.º 73.

Os primeiros tempos, foram dedicados a inteirar-me das matérias, sobretudo transmitidas pelo Arqtº  Robert Moura, então responsável pela gestão do recém criado Parque Natural da Arrábida. Mais tarde, percorri com entusiasmo os caminhos à descoberta destes territórios, ao volante de uma Renault 4 L, de um azul debutado, diga-se, viatura já com largos quilómetros colecionados, mas correspondendo ainda às exigências mínimas para me levar aos destinos, nos tortuosos caminhos da serra, salvo alguns imprevistos.

O carro de que vos falo, de mudanças de “vareta”, muito eficiente e de fácil condução, “pernoitava” estacionado à porta da sede dos Serviços, na Avenida de Angola, aqui em Setúbal. A viatura já não era nova, como vos referi, razão bastante para, de quando em vez, necessitar de manutenção em oficina.

Recordo-me de numa manhã bem cedo e depois de alguma insistência, o veículo se ter recusado a trabalhar. Só o consegui empurrando-o. Aproveitando a ligeira inclinação na avenida, deixei-o deslizar, de porta aberta, e no momento certo, tentei entrar da forma menos atabalhoada possível, mas e sobretudo, de forma certeira e com sucesso.

Já ao volante, engatei a segunda ou terceira mudança, na esperança de assim resolver o problema. Numa primeira tentativa, o motor frio, “tossiu bem alto” e escusou-se a trabalhar, dando só sinal de ter acordado. Depois, deslizou uns metros a ganhar velocidade, surpreendendo-me um pouco mais adiante com meia dúzia de rateres barulhentos, assustadores mesmo, quase lembrando uma “carreira de tiro”. O carro ficou envolto numa fumaça espessa, que o escape “vomitou”, negra e tóxica, só depois consegui ouvir o motor. O assustado e incomodado não fui só eu nem os moradores, mas também bandos de pássaros que ao longo da avenida dormiam nas árvores a sono solto. Debaixo delas, estavam os carros dos moradores todos bem estacionados. Na verdade, havia já algum tempo em que as árvores ali tinham sido plantadas.

Os carros, foi vê-los depois. Tinham mudado de cor quase instantaneamente. O susto foi grande… O velho carro do Parque da Arrábida, recém chegado e agora morador na Avenida, tinha conseguido naquela manhã bem cedo e de uma só vez, desatar com violência e para cima dos carros, os intestinos das centenas de pássaros que ali dormiam. Nesse tempo, os campos agrícolas da várzea estavam ainda muito próximos dos atuais espaços urbanos.



Ao fim do dia e por mero acaso, encontrei dois moradores do bairro que me manifestaram desagrado pelo barulho provocado lembrando “que já não era a primeira vez,” dizendo-me, depois, com algum sarcasmo, que sabiam sermos uma entidade do Estado, protetora da Serra da Arrábida, da natureza, dos animais e ambiente e acontecia aquele desassossego no bairro, sobretudo, àquela hora. Desculpei-me como pude, alegando deficiências da viatura e que a concertaríamos o mais breve possível. Um deles torceu o nariz e respondeu-me que nessa manhã, os moradores se depararam com os seus carros “enfeitados” com as fezes da passarada, para além dos sustos que pregaram aos pobres animais, o que não era justo, sendo nós os seus protetores.

Recordo-me de outro episódio deveras inusitado quando, entretanto, chegou de Lisboa, um Renault de cor branca do mesmo modelo e novo para reforçar a frota. Tive alguma dificuldade em conduzi-lo, pela conjugação de dois fatores, perfeitamente, incompatíveis. Por um lado, o facto dos pedais da embraiagem, travão e acelerador estarem “plantados” muito próximo uns dos outros, o que para mim não constituía novidade, dado guiar o mesmo modelo - o velho carro azul. A dificuldade surgiu, porque na véspera, comprei uns sapatos de biqueira larga, quase redonda que estavam na moda, o que me atrapalhou bastante a condução na gestão independente dos três pedais. Acelerava quando queria travar e engasgava nas mudanças. Claro que nunca mais os usei quando fosse trabalhar. O Diretor Eng.º Maia Barbosa, muito se riu e com vontade, quando lhe relatei esta dificuldade. “No fundo os sapatos estavam na moda, o carro é que muito provavelmente não…!” - disse eu em jeito de desabafo. Também nos rimos e muito lamentei, quando um dia me disse “não caber no Alfa Romeu Sport, de dois lugares” que se propôs comprar, mesmo com o banco todo puxado atrás. Como alternativa, optou por um BMW 2002, nada mau…

Ainda a propósito de carros dos serviços, num final do dia foi meu dever informar o Diretor, que ao Jeep Toyota amarelo, de matrícula DR-17-17, tinha eu feito a proeza de o tombar de lado num qualquer estreito e acidentado caminho rural, ali para os lados das aldeias da Portela, Piedade e S. Pedro. Aconteceu por desatenção minha e a viatura galgou o talude e “deitou-se”… Desliguei o motor de imediato e tratei , rapidamente, de sair por cima, pela “porta do pendura”. Logo apareceu ajuda vinda da aldeia da Portela. Foi fácil com o trator, pô-lo em pé. Foi só esperar o tempo suficiente para que os óleos do motor, da caixa de velocidades, águas do radiador e da bateria se nivelassem. Uma pequena amolgadela no guarda-lamas direito e pouco mais. Recebi a natural compreensão do Diretor.

 

 
 
 

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