top of page

Crónicas de arquivo 2

  • Foto do escritor:   Carlos Cardoso
    Carlos Cardoso
  • 20 de mai.
  • 3 min de leitura

O ano em que perdi a minha criação

de bichos-da-seda


 

Houve um tempo, e quem o viveu sabe bem, em que crescer passava também por criar qualquer coisa com as próprias mãos. Na minha juventude, raro era o rapaz ou rapariga que não tivesse, a certa altura, uma caixa de sapatos cheia de bichos-da-seda. Era quase um ritual de passagem, simples, mas cheio de descoberta.

Teria eu uns 13 ou 14 anos quando me ofereceram quatro desses pequenos seres, acompanhados de instruções claras, alimentá-los com folhas de amoreira branca. Até me indicaram onde as encontrar, aqui por Setúbal, como se me passassem um segredo valioso.

No primeiro dia, lá fui eu, explorador de ocasião, ao pátio do liceu. As amoreiras estavam lá, generosas, e eu trouxe um saco bem composto de folhas para casa. Guardei-as no frigorífico, truque aprendido, e comecei a rotina diária de alimentar aquelas quatro bocas insaciáveis.

E que espetáculo era vê-las comer. Horas e horas a observar aquele trabalho minucioso, o recorte perfeito em semicírculo nas folhas, a precisão quase cirúrgica com que evitavam os talos. Eram lições de paciência e atenção que não vinham nos livros. Em poucos dias, aquelas pequenas lagartas cresciam a olhos vistos, brancas com riscas escuras, sempre ocupadas na única tarefa que conheciam, comer.

Durante cerca de um mês, o ciclo era esse. Até que, sem aviso, tudo mudava. As lagartas paravam, escolhiam um canto da caixa ou um ponto entre talos mais firmes, e começavam a sua obra. Em dois ou três dias, teciam um casulo perfeito, um pequeno invólucro amarelo de seda onde desapareciam do nosso olhar. Sabíamos que lá dentro algo maior estava a acontecer.

Passados cerca de dez a quinze dias, surgia a mariposa. De cor creme, discreta, com uma vida curta e um único propósito, reproduzir-se. Não comiam, não perdiam tempo. Acasalavam e depositavam os ovos na caixa, alinhados como se fossem desenhados a régua e esquadro, pequenos pontos amarelos que, com o tempo, escureciam até ao tom acastanhado.

E assim se fechava o ciclo, pronto a recomeçar.

Mas nem sempre a natureza segue o nosso calendário.

Era 1976. Os ovos estavam guardados na estante da pequena sala onde estudava. Nessa altura, já não tinham o mesmo encanto, eram apenas pontos imóveis à espera da primavera, enquanto os testes se aproximavam. Debaixo da secretária, uma braseira eléctrica aquecia o ambiente nas tardes frias e húmidas de Setúbal.

Um dia, comecei a notar uns fios estranhos a descer pelas prateleiras. Fios finos, quase invisíveis. Subi até ao topo do móvel e percebi o que se tinha passado, os ovos tinham eclodido antes do tempo. Sem eu ter dado por isso, tinha criado uma estufa.

O calor constante enganou o ciclo natural. As pequenas lagartas nasceram… mas a primavera ainda não tinha chegado. As amoreiras estavam despidas, apenas com rebentos tímidos, longe de terem folhas capazes de alimentar aquela nova geração.

E assim, sem grande drama, mas com alguma frustração, a minha criação chegou ao fim.

Fiquei satisfeito por ter conseguido, durante os dois anos anteriores, repetir a experiência e partilhá-la com amigos, tal como um dia a tinham partilhado comigo. Mas aquele episódio ficou-me na memória como uma lição simples e direta, a natureza tem o seu tempo, e quando tentamos apressá-lo, raramente corre bem.

Foi um tempo bonito. Um tempo em que se aprendia a vida… vendo-a acontecer dentro de uma simples caixa de sapatos.


 

 

 

 
 
 

1 comentário


Dina Barco
Dina Barco
22 de mai.

Gostei de avivar memórias desses tempos 'em que se aprendia a vida' de forma tão simples! 😊

Curtir

Mantenha-se informado(a) com as novidades publicadas no Xetubal Site.
Subscreva a nossa newsletter semanal e acompanhe os conteúdos mais recentes, diretamente na sua caixa de entrada.

Serviço gratuito, com total respeito pela sua privacidade.

Email enviado!

FICHA TECNICA

Edição e coordenação de JoaQuim Gouveia (jornalista)

Produção gráfica: Catarina Branco

Revisora: Ana Santos

Email: xetubalsite@gmail.com

Contacto: 915 568 820

Sede: Setúbal

  • Instagram
  • Facebook
bottom of page