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CRÓNICAS DE OCASIÃO

  • Foto do escritor: Carlos M. Cardoso
    Carlos M. Cardoso
  • 27 de fev.
  • 2 min de leitura

"PARACETAMOL CHALLENGE"

O DESAFIO MORTAL



Há modas que passam. Há desafios que divertem. E depois há aqueles que simplesmente não deviam existir. Agora o chamado “Paracetamol challenge”, que circula no TikTok, pertence claramente a esta última categoria.

Trata-se de um “jogo” perigoso em que jovens se desafiam a ingerir o maior número possível de comprimidos de paracetamol, tentando perceber quem aguenta mais tempo sem precisar de assistência hospitalar. Pode parecer absurdo, e é, mas já levou adolescentes a consumir doses na ordem das dez gramas de uma só vez, o equivalente a vinte comprimidos de 500 mg. Em vários países houve internamentos e situações graves que podem levar a transplante de figado. Entre nós, por agora, não há casos descritos. Mas descansar à sombra da bananeira nunca foi boa estratégia.

O paracetamol é um medicamento comum, acessível, presente em quase todas as casas. Serve para aliviar dores e febre. Mas em excesso pode provocar vómitos, dores intensas, falência hepática irreversível e, em situações extremas, a morte. Não é um doce. Não é uma prova de coragem. É um risco real.

O problema destes “desafios” é que se propagam à velocidade de um clique. Não há controlo eficaz sobre a sua disseminação e, quando damos por ela, já milhares de jovens foram expostos à ideia. Muitos embarcam nestas modas sem verdadeiro espírito crítico. Outros fazem-no para chamar a atenção, para pertencer a um grupo, para se sentirem vistos num mundo onde tantas vezes se sentem invisíveis.

O psiquiatra Daniel Sampaio tem sublinhado algo simples e certeiro, “ensinamos as crianças a não falar com estranhos na rua, mas não conseguimos impedir que falem com estranhos na internet”. Se a educação resulta num caso, porque falha tantas vezes no outro? Talvez porque a vida moderna nos consome. Pais cansados, horários intermináveis, famílias que quase só se cruzam à mesa, quando se cruzam. E os filhos acabam, demasiadas vezes, entregues ao ecrã, à validação fácil, ao aplauso digital.

Como professor, vi muitas vezes este padrão. O jovem que provoca, que arrisca, que se expõe, nem sempre procura fama. Procura atenção. Procura presença. Procura alguém que lhe diga que ele importa. Quando essa presença falha, a internet ocupa o espaço.

Não há varinhas mágicas. Mas há responsabilidade. Dos pais, das escolas, da sociedade. E há também responsabilidade individual. Aos jovens deixo uma palavra clara, antes de engolirem comprimidos para provar seja o que for, pensem que o único prejudicado serão vocês. A vida não é um desafio viral. É um bem precioso, frágil e único é o vosso.

Vale mesmo a pena arriscá-la por uns segundos de notoriedade? A resposta é evidente. E não precisa de likes para ser verdadeira.

 

 
 
 

2 comentários


Rafaelborges33
10 de mar.

Excelente crónica e um alerta muito necessário! É assustador pensar no que os jovens são capazes de fazer por uns likes ou visualizações no TikTok. Os pais têm de estar cada vez mais atentos ao que se passa nos ecrãs dos filhos. Obrigado por trazerem este tema a público.

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Dina Barco
Dina Barco
03 de mar.

Subscrevo na íntegra!

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