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Crónicas de ocasião 3

  • Foto do escritor: Rafael Rodrigues
    Rafael Rodrigues
  • 8 de mai.
  • 2 min de leitura

A República dos Sempre os Mesmos




Meus Caros Companheiros e Queridos Amigos,

Há dias em que a gente não lê jornais… tropeça neles. Ontem foi assim. Abri uma página e saiu-me política. Fechei outra e saltou-me um político. Aquilo não é informação, é infestação com gravata.

E lá estavam eles, com aquela elegância de quem fala muito e diz pouco, a explicar-nos o país como se o país não fosse nosso. E eu, que já vi muita coisa, dei por mim a concordar com velhos senhores que já tinham topado o filme há séculos. O tal do Voltaire, que não era tonto nenhum, já avisava que a política bebe mais da perversidade do que da grandeza. E o Reagan, com aquele sorriso de quem já sabia o truque, atirou que a política parecia a profissão mais antiga… e não estava a falar de carpintaria… era de putedo!

Ora, o problema não é só eles. Somos nós também, que insistimos em dar palco a quem já provou que só sabe fazer teatro. É como voltar ao restaurante onde já nos serviram comida fria… e ainda deixar gorjeta.

Depois há aquele fenómeno curioso, o político que sai e vira comentador. Uma espécie de milagre moderno. Durante anos não resolveu nada, mas mal se senta num estúdio passa a resolver tudo… com palavras. É o equivalente a um bombeiro que só aprende a usar a mangueira depois do incêndio.

E os outros? Ah, os outros são ainda melhores. Uns vão gerir empresas que nasceram no colo deles, outros desaparecem com a dignidade de quem vai por aí… e ficam mesmo por aí, que é uma forma elegante de não fazer nada com ar ocupado. E há ainda os que deixam herdeiros, como se a política fosse uma herdade e o poder um trator que passa de pai para filho.

E depois surgem os casos… aqueles que já nem surpreendem. Casas que crescem como cogumelos, memórias que encolhem como camisolas na máquina, declarações que se esquecem por distração… distração essa que nunca acontece com o ordenado ao fim do mês. Milagre? Não. É método.

E nós vamos assistindo. Com ironia, com cansaço, às vezes com um sorriso torto. Porque no fundo sabemos que isto não é um acidente. É um sistema que se alimenta de si próprio, um lamaçal onde alguns se afogam… e outros aprendem a nadar de braçada.

E no meio disto tudo, ainda há quem pinte o cenário com nomes bonitos. “Acompanhantes de luxo”, dizem. Claro. Luxo é a palavra certa… o problema é saber quem paga a conta.

Assim vai este país. Não é que falte talento. Falta é vergonha com agenda.

E no meio da politiquice, quase como quem encontra uma flor no meio do cimento, aparece um poema. Um amor de tarde que nos lembra que há vida para além da planilha, da mentira bem ensaiada e da verdade mal dita. Que há um relógio que marca horas… e há outro que marca saudades.

Talvez seja isso que nos salva. Entre um discurso vazio e um gesto verdadeiro, ainda escolhemos sentir.

Porque no fim, meus amigos, a política passa… mas a forma como vivemos uns com os outros, essa fica. E essa… essa ainda não conseguiram roubar.

Tenham um resto de dia maravilhosamente feliz e tudo de bom!

 

 
 
 

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