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CRÓNICAS DO BARROSO

  • Foto do escritor: Maria José Afonso
    Maria José Afonso
  • 12 de fev.
  • 3 min de leitura

Espanha com fome, Meixide apertada



Em 2013, em Meixide, a crise era uma pergunta feita devagar. Não entrava a correr pela conversa, não vinha armada em conceito. Começava assim: já chegou à sua casa ou nem por isso? E a resposta vinha com um critério antigo, quase infalível: enquanto toda a gente continua a ir ao café, a crise pode existir noutros lados, mas ali ainda não se instalou. O povo, dizia-se, não se entrega. Aguenta.

A aldeia explicava-se por números simples. Muitos reformados. Trinta ou mais, talvez. Muitos já com oitenta anos, quinze por aí. Reformas modestas, mas certas. Não davam para viver como rico, mas davam para viver. Mais ou menos. E esse mais ou menos, em Meixide, sempre foi suficiente para manter a casa em pé. Havia poucos mais novos, filhos, sobrinhos, famílias com dois filhos, uma vacaria aqui, outra ali. Poucos, mas presentes. O resto, quase tudo reformado. Uma economia de permanência.

Quando se insistia na palavra crise, a memória levantava-se da cadeira. Antigamente é que era a crise. E a frase não pedia réplica. Vinha acompanhada de imagens que não cabem em estatística: a infância aos sete ou oito anos, os pés descalços, às vezes na neve. Nem todos, mas alguns vizinhos, algumas casas mais pobres, chegaram a atravessar assim os invernos. Não havia heroísmo nisso. Havia necessidade.

A conversa de 2013 avançava então para trás no tempo, até à Guerra Civil Espanhola, dita com datas certas: 1936 a 1939. Não como lição de história, mas como marca direta na vida da aldeia. Quando a guerra acabou, a fome instalou-se em Espanha. E a fome atravessou a fronteira. Os espanhóis vinham ao pão de centeio. Procuravam, negociavam, levavam o que houvesse. O pão deixou de ser apenas alimento; passou a ser valor.

Havia vizinhos com centeio guardado. Caixas de centeio. Vendia-se carne. O centeio seguia para zonas próximas da Raia. Quem ia comprar, comprava pouco. E caro. A necessidade não cria bons negócios, cria urgência. A fronteira, nesses anos, não separava países; organizava sobrevivências.

Depois veio o outro aperto, ainda mais organizado: o racionamento. A memória leva-nos a Vilar de Perdizes, onde três comerciantes marcavam o ritmo da escassez: Anibal, os Amarelos, e Virinhas. O povo ia lá levantar a ração por meio de senhas. Tudo pesado, tudo contado. 200 gramas de arroz, de açúcar, de bacalhau. Pouca coisa. Em casa, eram quatro irmãos, a mãe e um criado. Um quilo de açúcar não era reserva; era exceção, guardada para doença ou para uma visita rara.

Comia-se o que havia. Sentava-se à mesa sem escolha. E, muitas vezes, aquilo que era, era mau. Não por falta de cuidado, mas por falta de alternativa. “Nesse tempo senti tudo perto”, dizia-se. Perto do corpo, perto do limite. A casa não era das mais pobres, mas também não era rica. Era uma casa mais ou menos almejada. E mesmo assim, o aperto chegou.

É por isso que, em Meixide, em 2013, a crise era tratada com distância crítica. Não se negava o desconforto do presente, mas recusava-se a confundi-lo com o que já tinha sido vivido. Quem andou descalço, quem viveu de senhas, quem viu o pão atravessar a fronteira como último recurso, sabe distinguir falta de colapso.

Em Meixide, a palavra crise tem passado. E esse passado ensina a não exagerar, mas também a não esquecer.

 
 
 

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