Crónicas do Barroso
- Maria José Afonso

- 26 de mar.
- 4 min de leitura
Censura, minissaia e um bispo
O Pepe conta como era “o aviso”

Por estes dias, sentei-me com o Pepe Núñez, 80 anos feitos, e saí de lá com a sensação de que a idade, às vezes, é só um número mal colocado no calendário. O Pepe é, provavelmente, o jornalista mais velho da região, mas não tem nada de “último capítulo”. Tem é uma coisa rara: vontade de estar acordado para o mundo.
A conversa começou onde ele gosta de começar: na inquietação. “Fui inquieto desde que nasci”, disse-me, com aquela frontalidade que não pede licença. E explicou porquê: desde miúdo, já olhava para a vida com lente crítica. Lembrou a bula da Quaresma, o pagar para comer carne, e a sensação de injustiça que lhe ficou atravessada.
Dali partiu para o resto: a Igreja como poder, como lobby, e uma fé vivida fora do ritual. “Sou católico, mas à missa não vou”, atirou, sem pose. A fé, para ele, aparece quando o chão treme: não se encomenda a um santo, encomenda-se a qualquer coisa maior, “algo superior” que lhe dá tranquilidade.
Depois veio o mapa do homem. Nasceu em Cova, Puebla de Trives, Galiza, num 2 de março de 1946, numa cozinha, num escano, no meio de uma nevada “à séria”, daquelas que hoje parecem lenda. Mas a ligação à terra não o prende: “Só me sinto bem onde me tratam bem”. A morrinha, diz ele, “não existe”. E mesmo assim, há um detalhe bonito: em Madrid, ao ouvir Galiza, sentiu um aperto. Um único. “É a única lembrança que me afeta.”
O Pepe entrou cedo na comunicação, puxado pelo cinema e pela curiosidade. Começou numa agência de publicidade, a gravar spots, e foi parar à rádio em 1966, na Voz do Minho, em Ourense. Aí aprendeu o artesanato que hoje já quase não se vê: edição, continuidade, dedicatórias. Dedicatórias sem telefone, note-se. Eram cartas, centenas delas, a chegar todos os dias. E ele respondia. Sempre respondeu. Só que não guardou. Não por desprezo, mas por aceleração: “a vida foi muito movida, o que ia comigo ia, o resto ficava pelo caminho”.
Pelo caminho ficou até uma discoteca com milhares de discos. Mas há uma coisa que não ficou: uma gravação dele, enterrada na primeira pedra da Câmara Municipal de Vigo, numa fita guardada “debaixo da terra”. É o tipo de símbolo que encaixa no Pepe: não precisa de museu, basta-lhe a história.
Na rádio, foi criativo por obrigação e por prazer. Fez diretos, concursos, festivais, deu palco a pequenos grupos. Falou-me da primeira unidade móvel, de programas emitidos da praia e até de ilhas. E contou, com brilho nos olhos, a noite em que passou, antes de ser proibida, a canção “Je t’aime… moi non plus” em Espanha, montando um programa “erótico-festivo” como quem desafia o tempo. O pai ligou-lhe a meio, convencido de que o microfone tinha ficado aberto. Era o país a mudar e o Pepe a sentir a mudança no pulso.
Falámos também de censura. A mais clara, a mais crua, foi um aviso: uma minissaia num almoço oficial, um bispo a olhar demais para a namorada espampanante que acompanhava Pepe, o delegado do governo a chamar-lhe a atenção. Não era editorial, era controlo do corpo. E foi também na COPE, em Vigo, que ajudou a abrir uma brecha: foram dos primeiros a fazer rádio em galego, num tempo em que o idioma era tratado como menor. A cidade era “revolucionária”, disse ele, e a rádio acompanhava.
Um dia cansou-se. Saiu. E voltou ao sonho antigo: abriu cinemas, apostou em salas pequenas quando o mundo parecia caminhar para macroestruturas. Triunfou, caiu, reinventou-se. Ainda tentou negócios em Portugal, ainda levou um “pau” com uma pizzaria ao lado do hospital de Chaves, ainda perdeu dinheiro a sério. Mas diz aquilo que o define: a palavra “depressão ” não existe. Há que continuar.
E continuou. Em 2012, pegou na inquietação e fez dela projeto: Chaves TV1, um galego a fazer informação do lado de cá, com naturalidade e sem a pose do “estrangeiro”. Diz que nunca teve reação negativa, porque entra com respeito e com verdade. A forma dele é desarmante: tanto fala com o senhor que está a assentar ladrilho como com um comandante, com a mesma frontalidade. E isso, nos tempos de hoje, é um capital.
Aos 80, o Pepe não romantiza: cuida-se, não se abandona, não consegue ficar na cama mais de dez minutos depois de acordar. Gosta de ter agenda cheia. “Fazer o que gosto, quando quero e como quero”, resumiu. E quando lhe perguntei como queria ser lembrado, não pediu estátua nem epitáfio. Pediu música: no funeral, quer a Marcha Radetzky, porque para ele o Concerto de Ano Novo de Viena é o arranque simbólico do ano ,e quer que essa seja também a banda sonora da partida.
No fim, disse-me que se sentiu feliz. Eu acredito. Porque quando se conversa com alguém que viveu “a tope”, como ele diz, o tempo não pesa. E o Pepe, com 80 anos, continua a fazer o que sempre fez: olhar de frente e contar.

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