Crónicas do Barroso 3
- Maria José Afonso

- 8 de mai.
- 1 min de leitura
O BARAÇO E A VASSOURA

Há objectos que têm mais currículo do que muita gente.
Aquele baraço começou por ser coisa séria: abraçou fardos de palha, apertou o verão para o inverno, segurou comida para os animais, talvez o descanso de uma família inteira sem nunca receber agradecimento. Depois, como tudo o que é pobre e útil, foi promovido pela necessidade. Deve ter sido cinto de calças largas, remendo de cancela, nó de saco, solução para aquilo que se partiu num dia em que não havia tempo para ir comprar novo.
A vassoura, essa, conhecia a casa por dentro. Sabia onde ficava o pó antigo, o pó recente e o pó que parecia ter nascido já com direito de residência. Passou por baixo da mesa, junto ao lume, à entrada, no quarto onde se guardavam as coisas boas e as tristezas melhores. Foi mais íntima da casa do que muita visita.
E agora estão ali os dois, à porta fechada: o baraço e a vassoura. Um prende. A outra já não varre. Fazem companhia a uma porta verde que também já foi mais verde, numa parede de pedra que não se comove.
É isto que enternece: a vida deixa sempre os seus utensílios fora de horas. Coisas humildes, cansadas, sem biografia oficial, mas carregadas de mundo. O baraço ainda segura. A vassoura ainda parece pronta. E a casa, calada, continua a fingir que não precisa de ninguém.

Só escreve assim quem sabe ver com o coração!