Crónicas do Barroso (Marela)
- Maria José Afonso

- 20 de jun.
- 2 min de leitura
"CHAMO-ME MARELA"...

Pelo menos foi esse o nome que me deram. As vacas não escolhem o nome. Aceitam-no, como aceitam a chuva, o vento ou a chegada da primavera.
Hoje apareceu uma senhora com uma máquina fotográfica.
Não estranhei.
Os humanos têm uma curiosa necessidade de guardar aquilo que receiam perder.
Aproximou-se devagar. Eu também fiquei quieta. Entre uma vaca barrosã e uma jornalista existe um entendimento silencioso: ambas passam a vida a observar.
Ela olhava para mim.
Eu olhava para ela.
Nenhuma das duas sabia quem estava realmente a estudar quem.
A verdade é que eu já a tinha visto antes.
Os humanos pensam que as vacas vivem distraídas. Enganam-se.
Conheço as pessoas pelos passos, pela maneira como abrem um portão, pela forma como pousam as mãos sobre a madeira das cancelas.
Há pessoas que atravessam uma aldeia.
Há outras que pertencem à aldeia mesmo quando estão longe dela.
Enquanto apontava a câmara, fiquei a pensar numa coisa.
Os humanos fotografam as vacas porque nos acham representativas do Barroso.
Mas nós sabemos um segredo.
O Barroso nunca esteve em nós.
Sempre esteve neles.
Está naquela mulher que regressa todos os verões para abrir uma casa fechada durante meses.
Está no emigrante que percorre milhares de quilómetros para voltar a sentar-se no mesmo banco.
Está no homem que já não consegue lavrar a terra mas continua a ir vê-la todas as manhãs.
Nós somos apenas testemunhas.
E as testemunhas aprendem muito.
Aprendem que uma aldeia não desaparece quando perde habitantes.
Desaparece quando deixa de ser lembrada.
Aprendem que as pessoas passam a vida inteira à procura de um lugar onde possam ser chamadas pelo nome sem precisarem de se apresentar.
Aprendem que há regressos que valem mais do que muitas chegadas.
A senhora tirou a fotografia e foi-se embora.
Eu fiquei.
As vacas ficam quase sempre.
Mas durante alguns instantes imaginei a imagem que ela levaria consigo.
Provavelmente pensará que fotografou uma vaca barrosã.
Eu sei que não.
Fotografou uma pergunta.
A mesma pergunta que anda há séculos a percorrer estas montanhas.
O que leva alguém a regressar a um lugar onde já não precisa de estar, mas onde continua a sentir que pertence?
Até hoje, nem os humanos nem as vacas encontraram resposta.
Talvez seja por isso que continuamos ambos a voltar.


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