Crónicas do Barroso (o galo)
- Maria José Afonso

- há 5 dias
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O GALO INDIGESTO

Há aldeias onde um galo ainda consegue mandar mais no trânsito do que muita rotunda moderna.
Aquele saía todos os dias do quintal da Ti Maria da Assunção com um ar tão importante que parecia presidente da junta em dia de festa. Caminhava devagar, peito levantado, sem nunca olhar para os lados. Quem viesse de carro que travasse. E travavam.
Porque no fundo ninguém quer ficar conhecido como “o homem que matou o galo da Assunção”. Há alcunhas que duram mais do que o casamento.
“Não me toques que me desafinas.”
A frase saiu um dia da boca do senhor Alfredo da venda enquanto o via atravessar a estrada. E ficou.
Porque aquele galo tinha mesmo ar de quem se ofendia facilmente com a mediocridade alheia.
Havia nele uma arrogância quase artística. Um cantor de ópera preso no corpo de um animal de capoeira. Caminhava entre as galinhas como certos homens entram no café: convencidos de que toda a gente reparou na chegada.
E talvez tivessem razão.
Uma vez desapareceu três dias.
Aquilo, numa aldeia pequena, foi praticamente um assunto de proteção civil. Falou-se da raposa logo na primeira hora. Uma raposa velha, ruiva e magra, que andava há semanas pelas cortes durante a noite e já levava fama de profissional experiente. Diziam até que atravessava os lameiros com mais discrição do que certos contrabandistas antigos.
A Ti Maria não dormiu descansada.
O senhor Alfredo decretou logo a morte do bicho junto à venda, com a autoridade científica de quem nunca acertou numa previsão em oitenta anos de vida. Houve até quem jurasse ter encontrado penas perto da ribeira. Nas aldeias, basta meia pena no chão para nascer um inquérito popular.
Ao quarto dia, porém, o Napoleão regressou.
Mais magro. Mais enlameado. Mas com o mesmo ar superior de sempre. Nem parecia sobrevivente de uma fuga à raposa. Parecia um artista a reaparecer depois de um retiro espiritual.
A raposa provavelmente percebeu o mesmo que a aldeia inteira já sabia: aquele galo devia ser indigesto.
A Ti Maria atirou-lhe milho para o chão sem dramatismos. Nas aldeias, os afetos nunca precisaram de grandes declarações públicas. Um punhado de milho pode valer mais do que muita conversa.
E o Napoleão retomou a rotina.
Crista levantada. Passo lento. Convencido de que o mundo inteiro continuava desafinado… menos ele.

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