Crónicas do Barrosso ...
- Maria José Afonso

- 29 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
O ZÉ DA SERRA

Foi por esta altura, há um ano, que José Ferreira conheceu Artur Cassiano e Leonel de Castro, jornalista e fotógrafo, ambos movidos por uma espécie de urgência em contar histórias que o país tende a esquecer. A história de Zé — o homem só que guarda Casas da Serra, a aldeia onde quase todos partiram. Ficaram o Zé, as memórias e as eólicas, girando indiferentes à solidão que paira.
Casas da Serra já fora notícia há uns bons anos, quando os montes davam energia ao país, mas o Zé, lá em baixo, não tinha luz. O problema resolveu-se quando na aldeia só restavam ele e a mãe. Agora, sozinho, Zé é testemunha de um lugar que parece mais fantasma do que geografia. Foi numa dessas visitas ao vazio que o conheci, num programa da Rádio Montalegre com o museólogo Pedro Araújo. A história do Zé não saiu da cabeça e foi então que a passei ao Cassiano.
Artur Cassiano, habituado a dissecar os jogos de poder dos partidos no parlamento, tem um talento raro: escreve sobre o que quiserem, como se sempre tivesse vivido aquilo. Por isso, aceitou contar a história do Zé da Serra, feita de interioridade, solidão e uma espécie de resistência sem causa. Leonel, por sua vez, tinha o olhar: as fotos não precisam de palavras para dizer tudo.
A reportagem mexeu com quem a leu. Vieram gestos solidários, ofertas inesperadas, até um convite especial. Um dia, o Zé estava no Estádio do Dragão, coração azul do seu clube. O FC Porto vestiu-o dos pés à cabeça e levou-o ao relvado, onde 50 mil vozes entoaram os cânticos que ele antes ouvia na televisão do café. Otávio, o ídolo, entregou-lhe uma camisola autografada. O Zé, no meio de tudo aquilo, manteve-se quase imóvel, como quem teme acordar de um sonho bom. Mas ali, naquele instante, viver era acreditar.
Quando regressámos a Casas da Serra, já era madrugada. O Zé, mais preocupado comigo do que com ele próprio, insistia: “Não adormeças ao volante, Maria!” Voltei a visitá-lo depois, aquando da nova reportagem de Artur e Leonel para o Diário de Notícias. Um ano passou. O que mudou no Zé da Serra? Talvez quase nada. Talvez tudo.
A resposta está nas palavras e nas imagens de Cassiano e Leonel, nesta reportagem:
O Zé da Serra: Para onde vais tu? Os últimos dias na aldeia.


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