Crónicas do Carlos Cardoso
- Carlos Cardoso

- 10 de jul.
- 4 min de leitura
O Martelo que guardo há 48 Anos

Corria o final de julho de 1978. Eu tinha apenas 16 anos e vivia as longas férias grandes do liceu, numa altura em que os estudantes tinham três meses inteiros de descanso. Era também o tempo da Feira de Santiago, que então se realizava na Avenida Luísa Todi, e para nós, os jovens de Setúbal, aquele era um dos momentos mais aguardados do ano.
As férias neste final de mês Julho tinham um ritual bem definido. Durante o dia, a praia. À noite, a feira para continuarmos todos juntos.
Hoje parece impossível imaginar o que fazíamos com a maior das naturalidades. Chegávamos à Avenida Luísa Todi, esticávamos o dedo e, passados poucos minutos, algum automobilista dava-nos boleia para a Praia da Figueirinha ou para Galapos. Não havia telemóveis, não havia preocupações exageradas, apenas a confiança própria daqueles tempos.
Depois de um dia inteiro de sol, mar e brincadeiras, regressávamos da mesma forma. Mais uma boleia, um banho rápido, jantar tomado e lá seguíamos novamente para a Feira de Santiago.
Nos primeiros dias, a semanada desaparecia a uma velocidade assustadora. O principal culpado tinha nome, os carrinhos de choque. Era ali o nosso ponto de encontro, o palco onde tentávamos impressionar as raparigas e demonstrar os nossos supostos talentos de condutores. Ainda hoje me recordo da velocidade que procurávamos ganhar para conseguir fazer um pião perfeito no final da pista, como se fôssemos verdadeiros pilotos de ralis.
Mas o dinheiro acabava depressa. E sem fichas era difícil manter a reputação junto dos amigos e das amigas.
Sem coragem para pedir mais dinheiro ao meu pai, resolvi ser inovador. Falei com dois amigos na mesma situação e decidimos abdicar de alguns dias de praia para procurar trabalho. Fomos bater à porta da serração do Engenheiro Mateus, situada na subida para a Reboreda, junto aos pavilhões das motas do Sementrada.
A serração produzia madeira de todos os tipos, mas também fabricava caixotes para fruta. Os mais pequenos rendiam 2$50 por unidade. Os maiores, destinados a melões e melancias, valiam 4$50.
No dia seguinte apresentámo-nos ao trabalho. Falámos com o Engenheiro Mateus e com o capataz, explicámos o que pretendíamos e fomos admitidos.
Recebi um martelo e fui encaminhado para uma bancada. O trabalho consistia em montar os topos dos caixotes, colocando pequenos triângulos de madeira e ripas que depois formavam a estrutura. Mais tarde vinham as laterais e o acabamento final.
Enquanto trabalhava, fazia contas mentalmente. Cada caixote significava mais algumas moedas no bolso e mais algumas voltas nos carrinhos de choque. No final do dia, o capataz contava a produção, entregava-nos um papel com o número de caixotes feitos e lá seguíamos para a janela do caixa receber o pagamento.
Nunca esquecerei a sensação daquele “primeiro ordenado”. Tinha ganho o meu próprio dinheiro. Trazia uma ou duas bolhas nas mãos, mas sentia-me importante. Naquela noite, cada volta nos carrinhos de choque teve um sabor diferente. Era o sabor da independência.
Quando o meu pai chegou a casa, vindo do trabalho, a minha mãe aconselhou-me a contar-lhe o que tinha feito durante o dia.
— Pai, hoje estive a trabalhar na serração do nosso vizinho, o Engenheiro Mateus.
A resposta foi imediata.
— Mas tu não estás de férias da escola? Porque foste trabalhar?
Expliquei-lhe que a semanada tinha desaparecido logo no primeiro dia da feira e que ali conseguia ganhar algum dinheiro sem ter de lhe pedir mais.
Contei-lhe como fazia os caixotes e como era pago ao final do dia.
O meu pai ouviu tudo com atenção e limitou-se a responder.
— Tu é que sabes o que deves fazer.
No segundo dia tive uma surpresa. Os meus amigos não apareceram para trabalhar. Mais tarde vim a saber que os pais deles tinham sido contra aquela aventura e decidiram resolver o problema aumentando-lhes a semanada.
Eu continuei.
Enquanto martelava madeira atrás de madeira, sentia-me como o Tio Patinhas a ver cifrões passar diante dos olhos. Sabia que o dinheiro que levava para a feira dependia exclusivamente da quantidade de caixotes que conseguisse produzir.
Mas a maior surpresa estava ainda para acontecer.
Na segunda noite de trabalho, quando o meu pai chegou a casa, chamou-me. Trazia um pequeno embrulho na mão.
Entregou-mo e disse.
— Se tens de trabalhar, não vais trabalhar com as ferramentas dos outros.
Abri o embrulho e encontrei um martelo novo.
Continuou.
— Este será o teu martelo para fazeres os teus caixotes. Com a tua própria ferramenta vais aprender a fazer bem o teu trabalho.
Aquele simples gesto marcou-me para sempre.
Hoje, passados 48 anos, esse martelo continua comigo. Já não serve para fazer caixotes de fruta, mas continua a lembrar-me uma das maiores lições que recebi do meu pai.
Ele não me proibiu de trabalhar. Não me aumentou a semanada. Não me deu dinheiro para gastar na feira.
Fez algo muito mais importante.
O meu pai não me deu dinheiro para gastar na feira, deu-me uma ferramenta para aprender que o valor das coisas está muitas vezes no esforço que fazemos para as conquistar.
Esta é a minha história simples de vida, mas retrata bem uma geração de jovens que aprendeu cedo o valor do trabalho, da responsabilidade e da dignidade de ganhar o próprio dinheiro. E, acima de tudo, a sabedoria silenciosa do meu pai que ensinava mais pelos gestos do que pelas palavras.


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