Crónicas do Carlos Lopes (o ervilha)

“ERVILHA” O HOMEM DAS CASTANHAS QUE NOS AQUECIAM AS MÃOS NOS DIAS FRIOS DO INVERNO

Há um cheiro que anuncia o Outono antes de o calendário o dizer. É o cheiro da castanha assada. Misturado com o fumo que sobe devagar, com o frio que começa a chegar às mãos, com a humidade das ruas e com aquela luz dourada que parece pintar a cidade de outras cores.
Em Setúbal, quando o Outono chegava, havia esquinas onde o tempo parecia parar. Por detrás de uma nuvem de fumo, escondia-se um homem, junto a um velho assador de barro, onde as castanhas estalavam ao calor das brasas.
Era uma espécie de ritual. O vendedor mexia as castanhas, o fumo subia, a rua cheirava a carvão e a fruto assado… e quem passava acabava por abrandar o passo ao ouvir... “Ora já sabem que eu estou aqui”, pregão imortalizado numa gravação que João Henrique Melo, munido de um gravador, registou para a posteridade e que durante muitos anos foi a imagem de marca da emissora setubalense Rádio Azul.
Aquele pregão, era da autoria de um homem do povo que muito poucos sabiam que se chamava Luís Francisco Madaleno, mas que todos conheciam pelo apelido “Ervilha”. O tal que nunca falhava, fosse no Verão a vender gelados, ou castanhas durante o Inverno.
Oriundo da região de Aveiro, foi viver para Setúbal nos anos trinta do século passado, numa época em que acossados pela pobreza muitos habitantes daquela região, principalmente pescadores, migraram para Setúbal, onde a indústria das conservas já era uma florescente realidade.
Para além dos característicos pregões, a sua imagem de marca era também aquele famoso triciclo branco, a que o escudo nacional ornado de louros dava uma respeitosa nota patriótica, e que hoje ainda se encontra exposto no Museu Michel Giacometi – Museu do Trabalho, em Setúbal, ao alcance de todos os que o queiram recordar.
Aquele rudimentar velocípede, que com os anos foi sendo adaptado, ostentando a figura de Bocage, o escudo nacional e algumas legendas, posicionava-se algumas vezes na esquina da Rua dos Ourives com o Largo da Ribeira Velha, noutras junto à antiga casa dos brinquedos, ou em pleno Largo da Misericórdia.
Todos os dias, ou quase, lá vinha ele “oferecendo” a quem passava um punhado de castanhas quentes, embrulhadas num pedaço de jornal, dobrado à pressa em forma de cone. E havia qualquer coisa de mágico naquele cartucho.
O jornal podia trazer as notícias do dia, os resultados do futebol, um anúncio de uma loja que já não existe… ou simplesmente palavras que, minutos depois, ficavam manchadas pela gordura e pelo calor das castanhas.
E quando faltava o jornal, havia sempre uma página amarela das antigas listas telefónicas. Quem sabe se, entre tantos nomes e números, não ficava também guardado o telefone de uma memória.
Pegávamos no cartucho com as duas mãos, não apenas para comer as castanhas, mas para aquecer os dedos enregelados pelo frio. Depois vinha a batalha para descascar aquela primeira castanha. A casca queimava, os dedos ficavam negros, a castanha estava demasiado quente. Mas ninguém tinha pressa, porque comer castanhas na rua era também uma maneira de viver o Outono.
Hoje, há castanhas assadas por todo o lado. Continuamos a gostar delas. Continuamos a parar para comprar, para sentir aquela fragância tão característica que parece trazer consigo uma cidade inteira.
Mas alguma coisa mudou. Já não há tantos assadores de barro nas esquinas. Já não há cartuchos feitos de jornal (agora são em papel pardo). As listas telefónicas desapareceram. E aquela figura quase misteriosa, escondida atrás do fumo, tornou-se uma imagem de outros tempos que apenas vive na memória daqueles que com o “Ervilha” se cruzaram.
Mas basta sentir o cheiro da castanha assada para que tudo nos volte à memória. Voltamos às ruas. Voltamos às tardes frias. Voltamos às mãos quentes dentro dos bolsos. Voltamos à infância, aos amigos, às conversas, às esquinas de Setúbal. E percebemos que algumas tradições não desaparecem completamente. Ficam escondidas. À espera de um cheiro, de uma cor, de uma música… ou simplesmente de uma castanha quente embrulhada num velho pedaço de papel. Porque há sabores que alimentam o corpo e há outros que alimentam a memória.

Que belo texto e que boas memórias que ele traz, essas já ninguém nos tira!
«Porque há sabores que alimentam o corpo e há outros que alimentam a memória.» - Excelente final para um texto que li com imenso gosto! 😊