Crónicas do Carlos Lopes (ri...)

RI...MANDO PELOS JAVALIS

Houve um tempo em que, para falar de Setúbal, bastava falar do Sado, da Arrábida, do peixe fresco, do choco frito… e, claro, daquela luz que parece ter sido inventada especialmente para esta cidade.
Mas os tempos mudam. Hoje, ao que parece, há uma nova atração turística a conquistar a cidade do Sado: os javalis. Sim, os javalis! E perante esta novidade, não consigo deixar de pensar no meu querido e saudoso amigo João Lúcio Monteiro, falecido a 29 de outubro de 2008, com 85 anos.
Jornalista, poeta, setubalense de alma e coração, mentor da claque vitoriana VIII Exército, entre muitas outras coisas, João Lúcio tinha uma maneira muito própria de olhar para a cidade.
Durante anos, através da sua famosa crónica “Ri...mando pela cidade”, primeiro nas páginas de O Setubalense e mais tarde na Rádio Voz de Setúbal, onde juntos assinámos o programa “A Palavra, a Música e a Poesia”, João Lúcio transformava os problemas da nossa terra em versos… e os versos em gargalhadas.
Criticava, brincava, provocava. Mas, no fundo, fazia aquilo que só quem gosta verdadeiramente da sua cidade consegue fazer: apontava-lhe os defeitos sem nunca deixar de lhe reconhecer as virtudes.
E agora imaginemos o nosso querido João Lúcio a olhar para Setúbal e a dar de caras com um javali a passear tranquilamente pelas ruas. Ao seu jeito talvez começasse por perguntar:
“Será que veio conhecer a cidade
ou procura algum restaurante?
É que se gosta de choco frito,
já temos turista bastante!”
Porque, convenhamos, isto dos javalis tem potencial poético. Durante décadas, promovemos Setúbal com a Arrábida, o Sado, Tróia, os golfinhos e o choco frito. Agora podemos acrescentar: “Venha a Setúbal… e veja o javali!”.
Na verdade, há quem faça safaris em África. Nós, por cá, fazemos safaris urbanos. Só falta colocar placas à entrada da cidade: “Atenção: travessia de peões… e de javalis.” E talvez os turistas, em vez de perguntarem onde podem provar um bom choco frito, comecem a perguntar: “Desculpe, sabe onde posso ver um javali?” E nós respondemos:
“Depende. Quer vê-lo ou quer jantar com ele?”
Mas, brincadeiras à parte, talvez João Lúcio aproveitasse esta invasão para nos lembrar uma coisa muito simples: uma cidade também se revela através dos seus problemas. E Setúbal, com os seus encantos e as suas contradições, continua a dar matéria-prima para uma boa crónica.
Se João Lúcio ainda estivesse entre nós, talvez pegasse na caneta, ou na sua máquina de escrever, como tantas vezes o vi fazer, olhasse para o Sado, para a Arrábida… e para o javali que entretanto lhe passava à porta, e rimasse qualquer coisa assim:
“Setúbal já tem golfinhos,
tem choco, serra e mar,
agora tem javalis
que também querem passear.
Se a cidade os recebeu
com surpresa e algum temor,
não tarda teremos o javali
a ser guia e embaixador.
E se o turista perguntar qual é a nossa tradição, já podemos responder: ‘Javali com choco… ou feijoada de choco com javali?’”
João Lúcio provavelmente sorriria. Porque, afinal, enquanto houver problemas na cidade, haverá sempre matéria para rir… e rimar. E Setúbal continuará a ser Setúbal. Com o Sado, com a Arrábida, com o choco frito… e, pelos vistos, agora também com os javalis.
Mas João Lúcio, como jornalista que era, não ficaria apenas pela brincadeira. Porque por detrás do sorriso haveria certamente uma pergunta séria. Como é que chegámos aqui? O que está a acontecer para que animais selvagens deixem o seu habitat e se aproximem cada vez mais das zonas urbanas? E, sobretudo, como resolver o problema sem transformar a cidade numa espécie de “Bem-vindos à Selva”.

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