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Crónicas do Diário de Bordo

  • Foto do escritor: Guilherme Nunes do Santos
    Guilherme Nunes do Santos
  • 9 de mar.
  • 5 min de leitura

ESCUTAR ISTAMBUL DE OLHOS FECHADOS



 

Voltei a Istambul mais de vinte anos depois, como quem regressa a uma casa antiga onde as paredes guardam ecos da nossa própria memória. A cidade recebeu-me com o mesmo fulgor — e, ainda assim, diferente. Entre o chamado dos minaretes e o sopro salgado do Bósforo, reencontrei uma metrópole que continua a viver entre dois continentes e inúmeras camadas de tempo. Istambul é dessas cidades que nunca passam de moda: pelo contrário, fazem-na. Produzem-na, reinventam-na e inscrevem-na na própria história da moda, do gosto e da cultura. Aqui, cada rua parece vestir uma época diferente, e cada época parece desejar permanecer.

No coração histórico, onde outrora se ergueu Bizâncio e depois Constantinopla, domina a paisagem o grande símbolo da cidade: Santa Sofia, ou Hagia Sofia, como lhe chamam em turco e em grego. A primeira visão continua a ser avassaladora. Apesar das obras de conservação que hoje a envolvem, nada diminui a sua grandeza. Pelo contrário: há algo de profundamente comovente em vê-la cuidada, preservada, quase respirando sob a presença discreta dos andaimes.



A atual basílica foi erguida no século VI pelo imperador bizantino Justiniano I e inaugurada em 537. Antes dela existiram ali duas igrejas, ambas destruídas por incêndios e revoltas. Durante quase mil anos foi a maior catedral do mundo cristão e o centro espiritual do Império Bizantino. Quando os otomanos conquistaram Constantinopla, em 1453, o edifício foi transformado em mesquita imperial. No século XX, sob a República fundada por Mustafa Kemal Atatürk, tornou-se museu — gesto simbólico de aproximação entre culturas. Recentemente voltou a funcionar como mesquita, permanecendo, no entanto, aberta aos visitantes.

A sua cúpula continua a ser uma das maiores ousadias arquitetónicas alguma vez concebidas. Suspensa a mais de cinquenta metros de altura, parece flutuar sobre o espaço interior como um céu dourado. Conta-se que Justiniano, ao entrar pela primeira vez na basílica concluída, terá exclamado: “Salomão, eu superei-te.” Era mais do que orgulho imperial: era a consciência de ter criado um edifício capaz de unir Roma, a herança grega e o Oriente numa única visão.



Há algo de profundamente simbólico neste monumento que sobreviveu a impérios, guerras e terramotos. Por vezes diz-se, com uma certa poesia histórica, que Santa Sofia é “um templo mais antigo do que o próprio Império Romano”. Não no sentido literal — pois foi construída já na época bizantina — mas porque concentra tradições espirituais e arquitetónicas que antecedem Roma e que sobreviveram muito para além dela.

À sua frente ergue-se a Mesquita Azul, ou Mesquita do Sultão Ahmed, cuja elegância parece dialogar com Santa Sofia, numa coreografia de cúpulas e minaretes. Se Santa Sofia, representa a herança bizantina da cidade, a Mesquita Azul simboliza a maturidade arquitetónica do Império Otomano. O interior, revestido por milhares de azulejos de İznik em tons azuis, cria uma atmosfera de serenidade que parece suspender o tempo.

Não muito longe, o Palácio de Topkapi, abre-se como uma sucessão de pátios silenciosos voltados para o mar. Durante séculos foi o centro do poder otomano. Caminhar pelos seus jardins é imaginar a vida da corte, as intrigas do harém, as decisões políticas que moldaram grande parte da história do Mediterrâneo e do Médio Oriente. Das suas varandas vê-se o Bósforo e o Corno de Ouro — e percebe-se por que razão os sultões escolheram aquele lugar para governar um império.

Se os palácios contam a história do poder, os mercados contam a história da vida. O Grande Bazar continua a ser um dos lugares mais extraordinários da cidade. É menos um mercado do que um organismo vivo: milhares de lojas, ruas cobertas, luz filtrada pelas cúpulas antigas. Tapetes que parecem jardins persas, lâmpadas coloridas suspensas como constelações, ourivesarias, sedas, porcelanas. Ali o comércio é quase uma arte teatral.

Pouco distante encontra-se o Mercado das Especiarias, onde o ar se enche de aromas de açafrão, cominho, hortelã seca e frutos cristalizados. É impossível atravessar aquelas galerias sem sentir que se percorre uma antiga rota do Oriente. Entre bancas de chá e doces turcos descobri também uma pequena indulgência contemporânea: o famoso bolo San Sebastián, adotado pela cidade com entusiasmo. Servido ainda morno, com a superfície tostada e o interior cremoso, tornou-se um dos prazeres inesperados de Istambul.

Mas a cidade não vive apenas da sua herança monumental. Existe nela uma energia cultural contemporânea vibrante. Foi nesse espírito que visitei a Casa Botter Buluşmaları, um edifício extraordinário na avenida Istiklal. Construído em 1901 pelo arquiteto Raimondo D’Aronco, para Jean Botter — alfaiate da corte otomana —, é considerado o primeiro grande exemplo de Arte Nova em Istambul. Durante décadas foi simultaneamente residência e casa de moda, testemunhando uma cidade que já então compreendia a moda como linguagem cultural.



Hoje, cuidadosamente restaurado, o edifício tornou-se um centro dedicado à criatividade. A exposição atualmente patente, intitulada “With Love, Bedri Rahmi”, presta homenagem ao artista turco Bedri Rahmi Eyüboğlu, uma das figuras mais importantes da arte moderna da Turquia. Pintor, poeta e professor, Eyüboğlu dedicou grande parte da sua obra à valorização das tradições populares da Anatólia, integrando-as numa linguagem moderna profundamente pessoal.

A exposição apresenta pinturas, desenhos, cerâmicas, mosaicos e trabalhos gráficos que revelam o seu universo visual: peixes estilizados, figuras humanas simplificadas, padrões inspirados nos tapetes anatolianos e nas artes populares. Há também cartas, fotografias e cadernos de esboços que permitem acompanhar o processo criativo do artista. A palavra “amor”, que dá título à exposição, aparece repetidamente nas suas obras e nos seus poemas, como se a arte fosse, antes de tudo, uma forma de afeto pela cultura e pela vida.

Percorrer as salas da Casa Botter é perceber como a tradição e a modernidade dialogam em Istambul. A arte de Bedri Rahmi, parece dizer que o futuro só é, verdadeiramente, novo quando reconhece as raízes.

Talvez seja por isso que tantos poetas turcos escreveram sobre a cidade. O grande Nazım Hikmet escreveu certa vez que “a mais bela cidade é aquela onde o coração aprende a caminhar”. E Orhan Veli Kanık, deixou uma frase que se tornou quase um lema:“Escuto Istambul de olhos fechados.”

Há um momento em que essa frase se torna particularmente verdadeira: ao fim da tarde, no Bósforo. Imagine-se um pequeno barco a deslizar lentamente sobre a água azul-escura. Nas mãos, um copo de chá turco fumegante, enfrentando os 2ºC com que esse final de tarde nos presenteia. À medida que o barco avança, sucedem-se as fachadas dos palácios otomanos, as mansões de madeira, as fortalezas antigas. As pontes gigantescas ligam a Europa à Ásia, como linhas traçadas sobre o horizonte. A luz do entardecer desce sobre a cidade e transforma os minaretes em silhuetas douradas.



Nesse momento percebe-se verdadeiramente Istambul: uma cidade que vive entre continentes, entre séculos, entre identidades.

De regresso à terra firme, as ruas que conduzem à Torre de Galata, revelam outra faceta da cidade. Cafés cheios, livrarias pequenas, músicos de rua, galerias independentes. A torre medieval ergue-se sobre o bairro como um farol de pedra, lembrando a antiga colónia genovesa que ali existiu. Subir ao seu miradouro é observar uma cidade infinita — cúpulas, telhados, água, pontes — uma paisagem urbana que parece nunca terminar.

Mais de vinte anos depois da minha primeira visita, percebi que regressar a Istambul, não era apenas revisitar um lugar. Era reencontrar uma cidade que continua a ensinar algo essencial sobre o tempo. Há cidades que envelhecem. E há cidades que permanecem vivas porque aprenderam a mudar sem perder a memória.

Istambul pertence, sem dúvida, a essa rara categoria. Uma cidade que nunca passa de moda.

 

 
 
 

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