Crónicas do Gimba (marchas)

CASO “RONALDO/JESUS” É TEMA PARA A ”GRANDE MARCHA DE LISBOA” 2027

Sou – e toda a vida fui – músico. E sou alfacinha “de gema”. Em 2005, por brincadeira, concorri, juntamente com o meu amigo Miguel Viterbo, ao concurso “Grande marcha de Lisboa”. E, talvez sorte de principiantes, talvez pela originalidade de uma marcha composta por gente que nada percebia de marchas, ganhámos! E embolsámos um prémio catita: três mil e quinhentos euros... Quando, entre amigos ou conhecidos, eu dizia que tinha ganho o concurso da “Grande Marcha”, toda a gente perguntava: «por que bairro?», e eu respondia: «por nenhum». A “Grande Marcha de Lisboa” é uma canção que todos os bairros têm, obrigatoriamente, de cantar, como consta dos regulamentos criados faz quase cem anos, na distante década de 30, pelo homem forte da propaganda e imagem do “regime” – António Ferro. E, por isso, a “Grande Marcha” não puxa por Alfama, nem pela Mouraria nem por nenhum bairro em particular. Dizem os regulamentos que o tema da marcha terá de ser, obrigatoriamente, “Lisboa” e, «cumulativamente», outro subtema (geralmente uma qualquer efeméride): nesse ano de 2005, o sub tema era “750 anos de elevação de Lisboa a capital”. Tenho a dizer que, modéstia à parte, já ganhei o concurso mais três vezes – sou tetra campeão!
Porque concorro e volto a concorrer? Primeiro por prestígio: ter o meu nome na galeria dos ilustres, ao lado de um Jerónimo Bragança ou de um Raul Ferrão, enche-me – obviamente – de orgulho. Mas, há que admiti-lo, a razão principal para concorrer e voltar a concorrer, é o dinheiro – o “pilim”, o “graveto”! Atualmente o prémio para o vencedor é de cinco mil e quinhentos euros, nada de se deitar fora! Para se ter uma ideia, posso revelar que o prémio do Festival RTP da Canção, ronda (apenas) os 1500€! Quando – mais de uma vez – me contactaram da RTP, perguntando se queria entrar no Festival (geralmente em janeiro, o mês “das marchas”), eu respondia que estava ocupado a compôr para outro concurso que «paga muito melhor!». Na minha idade as propostas de trabalho não abundam e há que pôr “pão na mesa”, essa é que é essa. Da última vez que concorri e venci (2025), o sub tema – proposto por Carlos Moedas – era «Alma de Lisboa»...
Tenho a dizer que a primeira vitória, a de 2005, foi polémica. Polémica porque, justamente por “não percebermos nada de marchas”, a canção apresentava particularidades pouco ortodoxas, que apanharam de surpresa todos os bairros. Para citar apenas uma, o andamento ou, se quiserem, em linguagem moderna, as BPMs (batidas por minuto), era bastante mais rápido que o normal. Aliás essa foi a nossa primeira permissa: Ai as marchas costumam ter entre 120 e 130 BPMs? Então a nossa terá 140 (o regulamento não o proíbe) e vai chamar-se “A Marcha Mais Alegre da Avenida”!
É claro que, com o passar dos anos e porque, justamente a marcha “Mais Alegre” deu água pela barba no que às supostas “violações” das regras diz respeito, as minhas canções a concurso já foram compostas dentro dos cânones tradicionais: estrutura “verso/refrão” e velocidades “regulares”, perto das 130 BPMs, que eu nuca gostei de marchas empasteladas. Por isso, foi com surpresa que soube, faz dias, que o sub tema proposto por Moedas, para 2027 é o ainda fresco “caso Ronaldo”, um choque de titãs, uma rivalidade bem ao jeito de Alfama vs. Mouraria, mas sem beliscar as credenciais destes bairros históricos.
Antes de compôr qualquer canção, eu tenho de magicar, de cogitar sobre o assunto. Alinho meia dúzia de palavras que considero “obrigatórias” e então, munido de ferramentas lexicográficas (vulgo dicionários), procuro rimas, sinónimos e palavras semelhantes – que tenham as mesmas vogais, as mesmas consoantes, o mesmo número de sílabas, etc. No fim deste “jogo” tenho perante mim a letra canção pronta a montar: depois é uma questão de ordenar e distribuir essas palavras. Vou dar-vos um exemplo: se consultarmos um glossário tauromáquico e passarmos esse palavreado para papel/computador, teremos perante nós a maioria das palavras usadas na célebre canção “Tourada”, de Fernando Tordo, vencedora do Festival RTP da Canção em 1973. Para um génio como Ary dos Santos, não terá sido muito difícil chegar desse palvreado até à letra final, ele que não entendia patavina de corridas de touros. A intenção era apenas a de fazer uma metáfora ao “regime”.
Aqui, as palavras “obrigatórias” serão, obviamente, «Ronaldo», «Jesus» e, claro, «futebol», «golo», e muitas mais, todas relacionadas com “bola”, e ainda, neste caso,
«luta», «choque», etc. Dizem o cânones que os versos das marchas, embora não seja obrigatório, devem ser redondilhas (cinco ou sete sílabas métricas), decassílabos – como o próprio nome indica, dez sílabas – ou alexandrinos (doze). Estas são métricas “clássicas” da música popular portuguesa, que encontramos no nosso reportório popular, no fado e, consequentemente, nas marchas. Então deixo aqui um desafio para os leitores: toca a escrever uns belos versos para o concurso de 2027. Quem sabe se um de vós não ganhará o cobiçado prémio?...
P.S. Isto é, obviamente, uma brincadeira. O tema da “Grande Marcha de Lisboa” de 2027 ainda não foi tornado público (costuma sê-lo mais para o final do ano...). Mas quem sabe se algum dos nossos leitores se “chega à frente” com uns versos bem sacados sobre esta polémica? Prémio pela façanha – já que estamos num site de um “setubalense” – uma bela dose de choco frito!...

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