Crónicas do José
- José A. Gonçalves

- 10 de jul.
- 3 min de leitura
Imigrante setubalense narra como é viver o clima do futeboi em terras de Sua Majestade
"Move on, man! Superem o trauma!"

Imagem gerada por IA
Viver em Inglaterra, durante um Mundial de futebol é uma experiência de desporto extremo. E não, não estou a falar do que se passa em campo. Falo da verdadeira, da sangrenta, da incompreendida batalha cultural que acontece nos bastidores de qualquer transmissão televisiva.
Para o comum cidadão britânico, o ritual do futebol é simples, quase primitivo: vai tudo para o pub mais próximo às duas da tarde, começam a abastecer o sistema com canecas de meio litro de cerveja, e às sete da noite está tudo a cantar o "It's Coming Home", abraçado a um poste de eletricidade. Nós, portugueses, olhamos para isto com o choque cultural de quem vê alguém tentar comer sopa com um garfo.
Para nós, jogo que é jogo não se vê em pé, aos encontrões, num tapete gorduroso de um pub que já viu melhores dias no século passado. Jogo que é jogo para os tugas, tem de ser visto à mesa. É uma instituição. É um ecossistema composto pela "Sagrada Trindade": Chouriço Assado, Pão Alentejano e Vinho Tinto.
Agora... Tentem explicar isto a um inglês. Tentem explicar-lhe que não conseguimos festejar um golo do Ronaldo, sem ter na mão uma fatia de pão para aparar o pingo do chouriço. Eles olham para nós como se fôssemos extraterrestres. "Mas onde estão as vossas pints?", perguntam, genuinamente, preocupados com a nossa aparente sobriedade. Mal sabem eles que o tinto faz o mesmo efeito, mas com muito mais classe e menos idas à casa de banho durante a segunda parte.
Mas o verdadeiro teste de paciência não é a comida. É o rancor. Os ingleses são incapazes de esquecer. Têm uma memória histórica que faria inveja a um elefante com Alzheimer invertido.
Se forem a um pub com a camisola das quinas, não falha. Há sempre um gajo chamado Gazza ou Wayne, com a pele perigosamente vermelha do sol de 18 graus, que aponta o dedo e diz: "Yeah mate, but Ronaldo... that wink,.. That bloody wink".
Contexto para os mais esquecidos: Em 2006 - repito, em dois mil e seis -, Cristiano Ronaldo fez um piscar de olho para o banco de Portugal, depois da expulsão de Wayne Rooney, nos quartos de final do Mundial.
Passaram 20 anos! Duas décadas! Desde entao, já tivemos três Papas, a rainha morreu, o Reino Unido, saiu da União Europeia, o Ronaldo já ganhou cinco Bolas de Ouro, já foi para as Arábias... e os ingleses ainda estão agarrados àquele raio daquele piscar de olho como se tivesse acontecido ontem à tarde...
Dá vontade de os abanar pelos ombros e gritar: "Move on, man! Superem o trauma!" Se nós fôssemos guardar rancor por cada vez que fomos eliminados injustamente ou por cada "roubo" de arbitragem na história do futebol, não fazíamos mais nada da vida. Mas eles não. O piscar de olho do CR7 está gravado no ADN britânico!
Viver o Mundial em território inimigo é isto. É fingir que não percebemos as bocas sobre o Rooney, enquanto trincamos o nosso queijo de Azeitão, comprado numa loja tuga ao preço do ouro.
É ver o jogo rodeados de um mar de camisolas brancas, a rezar para que Portugal, marque só para podermos gritar "GOLO!" com a boca cheia de chouriço, espalhando o terror pelo pub fora (embora nao seja nada aconselhavel fazer isso).


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