crónicas do José A. Gonçaves (ritual)

JORGE PALMA E O MEU RITUAL SAGRADO

(Clique para ouvir o tema)
“Epá, deixa-me abrir contigo, desabafar contigo... Falar-te da minha...” infância.
Não toda, claro. Seria uma seca. E tu baldavas-te logo. Os teus dedos ficariam demasiado tempo longe do piano que tão bem tratas. Mas porque escrevo a pensar em ti, deixa-me falar-te apenas de um momento específico da minha infância.
Penso que por volta de 1984, ou qualquer coisa que o valha, eu tinha um ritual sagrado. Assim que o toque de saída soava na Escola Primaria da Fonte do Lavra, lá ia eu para casa. A mochila da escola caía num canto qualquer da sala, o barulho da rua ficava lá fora e a mesa vestia-se com o lanche da tarde, normalmente pão com manteiga e uma caneca de leite temperada com cevada e açúcar. Sim, porque a malta pequena sentia-se graúda a beber aquele ‘café’ que não fazia mal a ninguém.
Mas o verdadeiro festim não se comia com a boca. Devorava-se com os olhos fixos no ecrã da televisão.
A televisão, ainda com aquele zumbido das válvulas a ganhar vida (isto para os miúdos de agora soa a qualquer coisa entre o tempo dos dinossauros e ficção cientifica tipo Espaço 1999, ou Buck Rodgers no Século XXI) transformava-se então numa janela para as margens do rio Thames.
Paráva tudo (pelo menos para mim).
Estava a começar o Vento nos Salgueiros.
Não vale a pena dizer que o programa passava na RTP, porque também não tínhamos outro canal para ver (toma lá mais esta, Geração Z).
Aquele fantástico mundo de stop-motion, com o Sapo, o Rato, a Toupeira e o Texugo, não falava inglês. Falava a nossa língua, mas fazia-o de uma forma única, quase poética, que nos prendia a atenção antes mesmo de a história começar. Canto e Castro, que tantas outras vezes deu a sua tão específica voz a outras dobragens de animação, fazia parte do elenco.
Como esquecer?
E como esquecer aquela música inicial?
Tudo começava naqueles primeiros segundos de cada episódio. Antes de qualquer imagem nos transportar para as aventuras da beira-rio, surgia aquela voz. Era um tom rouco, rasgado, profundamente humano e cheio de uma melancolia que me entrava pelos ouvidos e que (sei-o agora) se instalou na minha memória para sempre.
Eu não sabia na altura, mas estava a ouvir a tua voz pela primeiríssima vez.
Para uma criança de nove anos, habituada às canções infantis redondinhas e polidas, tipo ‘Onde tás ó Zéi’ da Ana Faria e dos Queijinhos Frescos (credo...), ou o Coro de Santo Amaro de Oeiras, por alturas do Natal, a tua voz era uma revelação. Também não o sabia na altura. Apenas sabia que era diferente. Não tentavas infantilizar nem condescender. Cantavas com a verdade de quem conta uma história ao pé da lareira, transformando a melodia do genérico num abraço de fim de tarde.
"Vento nos Salgueiros", não era apenas um desenho animado, era um refúgio musical e visual que marcava a fronteira entre o dever da escola e o sonho das horas vagas.
Anos mais tarde, quando me cruzei com o ‘Dá-me lume’, o ‘Bairro do Amor’, o ‘Deixa-me rir’, o ‘Jeremias, o fora da lei’, a ‘Terra dos Sonhos’, o ‘Portugal, Portugal’, a ‘Estrela do Mar’ e essa obra prima social chamada ‘O Lado Errado da Noite’, a sensação de reencontro foi imediata.
Eras um cantor aclamado pelo país inteiro e para mim, eras já um velho conhecido. Tinhas-me embalado os lanches de 1984 e ensinado que a música pode ter marcas, textura e alma.
E tenho que te agradecer por isso,
Ah... E, também, por teres cá estado até ao fim do Verão.

Comentários