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Crónicas do Rafael

  • Foto do escritor: Rafael Rodrigues
    Rafael Rodrigues
  • 10 de jul.
  • 4 min de leitura

Há tragédias que chegam sem pedir licença. Outras são convidadas a entrar pela própria mão do Homem.

 

Quando a Terra treme e

a Humanidade escolhe tremer

 

 

Nos últimos dias, o terramoto que atingiu a Venezuela, voltou a recordar-nos uma verdade antiga, a natureza não conhece fronteiras, religiões, ideologias nem partidos políticos. Quando a Terra decide libertar a energia acumulada nas profundezas, fá-lo com uma força impossível de negociar. Não aceita tratados de paz, não responde a sanções económicas nem respeita calendários eleitorais. Simplesmente acontece.

Mas, perante um fenómeno natural desta dimensão, há uma pergunta que não pode deixar de ser feita que é quantas vidas se perderam apenas por causa do sismo e quantas porque alguém falhou na prevenção?

É aqui que termina a responsabilidade da natureza e começa a responsabilidade do Homem.

Um terramoto não é provocado pela negligência humana. O movimento das placas tectónicas faz parte da dinâmica do planeta desde muito antes de existirmos. Contudo, transformar um fenómeno natural numa catástrofe humana depende muitas vezes das decisões tomadas durante décadas.

Construir cidades em zonas de elevado risco sísmico exige conhecimento, planeamento, fiscalização e coragem política. Não basta inaugurar edifícios bonitos. É preciso que esses edifícios continuem de pé quando o chão deixa de obedecer às leis da rotina.

As normas antissísmicas não são um luxo para países ricos. São um seguro de vida para populações inteiras.

Quando elas não existem, quando não são cumpridas ou quando são sacrificadas em nome da poupança, da corrupção ou da pressa, o número de vítimas deixa de ser apenas consequência da força da natureza. Passa também a refletir a fragilidade das decisões humanas.

Infelizmente, a História está cheia de exemplos onde os desastres naturais foram ampliados pela irresponsabilidade dos próprios homens.

Mas existe algo ainda mais difícil de compreender.

Enquanto um terramoto resulta de forças impossíveis de controlar, as guerras resultam precisamente do contrário: são decisões perfeitamente evitáveis.

Olhemos para a Ucrânia. Olhemos para o Médio Oriente.

Durante meses, anos, assistimos diariamente à destruição de cidades, hospitais, escolas, habitações, infraestruturas e, sobretudo, de vidas humanas.

A diferença é gigantesca.

Num terramoto ninguém escolhe quem vai morrer. Numa guerra alguém decide quem pode morrer. A natureza destrói sem intenção. A guerra destrói por intenção. A natureza não odeia. Os homens conseguem transformar o ódio numa estratégia militar.

Talvez seja esta a maior ironia da nossa civilização.

Gastamos milhares de milhões em investigação científica, inteligência artificial, satélites, exploração espacial e tecnologia militar cada vez mais sofisticada. Somos capazes de enviar sondas para Marte, operar corações à distância e comunicar instantaneamente entre continentes. Mas continuamos incapazes de resolver muitos conflitos sem recorrer às armas.

A inteligência tecnológica parece evoluir muito mais depressa do que a inteligência moral. E essa talvez seja a maior pobreza do século XXI.

As guerras raramente são travadas por quem as decide. Os gabinetes permanecem intactos. As salas de reuniões continuam climatizadas. As conferências de imprensa sucedem-se.

Entretanto, quem paga a fatura são sempre os mesmos, são crianças, idosos, famílias inteiras, profissionais de saúde, bombeiros, socorristas e cidadãos que nunca tiveram qualquer influência nas decisões dos poderosos.

Enquanto isso, multiplicam-se discursos sobre vitórias estratégicas.

Mas haverá vitória quando uma criança deixa de ter escola? Quando uma mãe perde um filho? Quando um pai regressa a casa e encontra apenas ruínas? Talvez seja tempo de redefinirmos o significado da palavra vitória.

Porque nenhuma bandeira hasteada sobre um edifício destruído consegue esconder o fracasso da humanidade.

No caso dos sismos, devemos investir em prevenção, engenharia, educação, proteção civil, fiscalização rigorosa e cultura de segurança. Não evitaremos que a Terra trema, mas podemos evitar que milhares de edifícios se transformem em armadilhas mortais.

No caso das guerras, a solução é simultaneamente mais simples e mais difícil. Mais simples porque depende apenas da vontade humana. Mais difícil porque exige aquilo que tantas vezes escasseia, a humildade.

O orgulho político continua a custar demasiadas vidas.

Os egos nacionais continuam, demasiadas vezes, a valer mais do que a dignidade das pessoas.

E quando isso acontece, a História repete sempre a mesma fotografia, são cidades reduzidas a escombros, famílias destruídas, gerações traumatizadas e líderes que continuam a discursar como se a morte pudesse ser medida por comunicados oficiais.

Há quem diga que a guerra faz parte da natureza humana. Prefiro acreditar exatamente no contrário. A guerra faz parte da incapacidade humana de dominar os seus próprios instintos.

Porque, se conseguimos construir pontes sobre rios gigantescos, atravessar oceanos, decifrar o ADN e explorar o espaço, também deveríamos ser capazes de construir pontes entre povos.

Talvez o verdadeiro progresso não esteja nas armas mais modernas, mas na capacidade de evitar que elas sejam utilizadas.

A Terra continuará a tremer. Isso não depende de nós.

Mas as guerras... Essas dependem.

E essa diferença deveria retirar-nos o sono.

Porque, quando a natureza mata, choramos a nossa fragilidade. Quando os homens matam, choramos o fracasso da nossa consciência.

No fim de contas, talvez a pergunta mais importante não seja quantos mortos provocou um terramoto ou quantos mortos provocou uma guerra.

A verdadeira pergunta é outra.

Se já aprendemos a prever muitos dos movimentos da Terra, quando aprenderemos finalmente a controlar os abalos do orgulho, da ambição e da intolerância que continuam a nascer dentro do coração humano?

Nesse dia, talvez a humanidade descubra que o maior antissísmico alguma vez inventado não foi feito de betão nem de aço.

Foi feito de consciência.

 
 
 

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