Crónicas do Rafael (férias)
- Rafael Rodrigues

- 24 de jul.
- 3 min de leitura
PORTUGAL À NOSSA PORTA

Hoje proponho-vos uma revolução daquelas que não precisa de cartazes, discursos nem promessas eleitorais. Basta pegar nas chaves do carro, encher o depósito, preparar uma mochila e seguir estrada fora.
Façam féria cá dentro!
Vivemos num dos países mais bonitos do mundo e, curiosamente, muitos conhecem melhor as avenidas de Paris, as praças de Madrid ou os canais de Amesterdão do que as aldeias perdidas da Beira, os socalcos escondidos de Trás-os-Montes ou as praias secretas da nossa costa. Há um Portugal inteiro à espera de ser descoberto. E, acreditem, não cobra bilhete de entrada para nos roubar o coração.
Do Minho chega-nos o verde que parece pintado à mão, os espigueiros que contam histórias sem abrir a boca e um povo que recebe quem chega como se já fosse da família. Em Trás-os-Montes aprende-se que o silêncio também sabe falar. No Douro, até as vinhas sobem montanhas com uma elegância que faria inveja a muitos alpinistas.
Descendo um pouco, encontramos aldeias de xisto, castelos onde ainda parece ouvir-se o tilintar das espadas, rios cristalinos, serras que cheiram a rosmaninho e pequenas tascas onde o cozinheiro continua a ser a avó, embora ninguém lhe chame chef.
Depois chega o Alentejo. Ah... o Alentejo! Terra onde o relógio anda mais devagar porque descobriu, antes de todos nós, que a vida não é uma corrida de cem metros. É uma caminhada entre sobreiros, vinho, pão, azeite e conversas que começam ao almoço e terminam quando as estrelas já tomaram conta do céu.
E quando pensamos que já vimos tudo... aparece o Algarve. Mas não apenas o das filas de toalhas na praia e dos chapéus de sol em segunda fila. Existe um Algarve serrano, branco, tranquilo, cheio de tradições, mercados, artesanato e gente que ainda sabe dizer bom dia olhando-nos nos olhos.
Pelo caminho há romarias, feiras medievais, procissões, ranchos folclóricos, festas populares, cantares ao desafio, cante alentejano, pauliteiros, filigranas, olaria, rendas, barcos coloridos, moinhos antigos e um património que não cabe em nenhuma brochura turística.
E depois... a gastronomia. Meu Deus, a gastronomia!
Quem consegue resistir a um caldo verde, um arroz de marisco, um cabrito assado, umas migas, uma posta transmontana, um polvo à lagareiro, um leitão, um queijo da Serra, uma sopa da pedra ou um simples pão acabado de sair do forno com azeite?

Campanha feita há algumas décadas pelo Estado português
Viajar por Portugal também se faz de garfo na mão. E confesso-vos uma coisa, é que há restaurantes onde a sobremesa chega antes da vontade de regressar a casa.
Por isso, neste Verão, antes de pensarmos em aeroportos, malas perdidas ou filas intermináveis, talvez valha a pena olhar para o mapa de Portugal. Há sempre uma estrada que nunca percorremos. Há sempre uma vila onde nunca parámos. Há sempre uma paisagem que ainda não fotografámos. Há sempre uma mesa onde alguém nos espera com um sorriso e uma receita guardada há gerações.
Façam féria cá dentro. Porque viajar não é apenas mudar de país. É mudar de olhar.
E Portugal, esse velho companheiro de tantos séculos, continua todos os dias a surpreender-nos como se tivesse acabado de nascer. No fim da viagem talvez descubramos a maior das ironias, é que andámos uma vida inteira à procura de paraísos distantes... quando um deles estava mesmo aqui, ao virar da próxima curva.
Boas férias... e boa viagem pelo nosso extraordinário Portugal!



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