CRÓNICAS DO TEMPO
- Vitor Augusto

- 12 de fev.
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"THIS IS NOT AMÉRICA"
A 23.ª edição do Mundial realiza-se de 11 de junho a 19 de julho e contará pela primeira vez com 48 seleções, numa inédita organização tripartida entre Estados Unidos, Canadá e México.

Uma coincidência cronológica cruzando com o pior momento nas relações diplomáticas entre os dois primeiros países na sequência da ambição de Donald Trump, em integrar o Canadá no conjunto dos estados da federação, das tarifas infligidas a Otawa e da dissidência do primeiro-ministro Mark Carney, relativamente à pretensão de ocupação da Gronelândia, pelo Presidente norte-americano.
O objectivo de aproximação dos territórios vizinhos, em nome dos valores do desporto, acaba ferido por um golpe de misericórdia infligido pela veia imperialista, distorcendo a vocação do futebol enquanto elo de ligação e denominador comum entre os povos.
O triângulo financiado e inspirado pela FIFA, encontra-se envolvido por tensões e ameaças transfronteiriças entre Washington e o México, consequência da recente acção em território venezuelano e da ponderação da administração republicana em reproduzir no país sul-americano intervenções, visando o narcotráfico, contrárias à ordem internacional, segundo declarações actuais da chefe de estado Claudia Sheinbaum.
A chegada do futebol, o chamado soccer, à nação americana entre 1964 e 1984, resultou na criação da North American Soccer League, prova pioneira reunindo, curiosamente, equipas dos EUA e do Canadá.
Nomes grandes do futebol mundial como Beckenbauer e Pelé, categorizaram o plantel do Cosmos, como team de enorme expressão, gerando a chegada de outras vedetas a engrossarem a competição, a priori com regras diferentes dos restantes quadrantes geográficos.
Em 1994 o Mundial de Futebol realizou-se em diversas cidades norte americanas, tendo dado um impulso à modalidade num país onde a popularidade do desporto profissional assenta, predominantemente, no futebol americano, basquetebol e basebol.
Em 1996 foi criada a MLS, disputada hoje entre clubes americanos e canadenses (Toronto, Montreal e Vancouver), numa simbiose que alberga e reúne representantes dos dois lados da fronteira.
O que o futebol tem sido capaz de juntar a política consegue separar.
Nunca se deparou tão artificial uma organização conjunta de uma competição da dimensão da Copa do Mundo, num mundo deveras dividido e espartilhado no plano regional e à escala global.
Diversas são as vozes que se têm manifestado adversas à legitimação da promoção e branqueamento do pendor autocrático da liderança vigente na federação norte americana, por via da visibilidade conferida pelo desporto rei e glorificação do culto da personalidade de Trump, ao ponto de ser defendido o boicote à realização do evento com todas as implicações decorrentes.
Um Campeonato do Mundo, vai muito além do prestígio dos anfitriões, do exibicionismo e pose de superioridade dos seus dirigentes.
Aspira-se a um clima de fraternidade, um ambiente de comunhão, um registo de proximidade e aproximação que é inerente e subjacente aos códigos e cânones do desporto.
Mascarar a desconfiança e ocultar as divergências, vestir a pele de cordeiro, colocará o futebol num plano de alienação de que ao longo dos tempos o autoritarismo se serviu e prostituiu a beleza e exaltação da sua magia.

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