Crónicas em Hora de Ponta
- Vitor Augusto

- 23 de abr.
- 2 min de leitura
(O lado escuro da Lua)
DARK SIDE OF THE EARTH

A missão Artemis II partiu da Florida, para alcançar a maior distância alguma vez atingida em relação ao planeta Terra, em nave tripulada.
A 400.000 quilómetros do planeta azul a tripulação da cápsula Orion, observou uma cratera com um brilho invulgar que decidiu baptizar de Carroll em homenagem à esposa do comandante Reid Wiseman, falecida no ano de 2020, vítima de doença prolongada. Foi porta-voz desse desejo o astronauta canadiano Jeremy Hansen, num momento de intensa emoção.
Nas viagens no espaço deve ser evitado chorar. As lágrimas, pelo efeito anti-gravidade, acumulam-se e colam-se aos olhos, perturbando a visão, podendo comprometer a segurança do voo pela possível infiltração nos equipamentos e dispositivos do módulo.
Christina Koch, engenharia do quarteto, porém não resistiu e verteu a sua labilidade emocional num acesso de humanidade que nenhuma inteligência artificial exibiria.
À outra cratera propuseram a designação de “Integrity”, num previsível acesso de instinto ético.
Em Abril de 1970, a Apollo 13 alcançaria a marca de 248 milhas terrestres, afastada do globo terrestre, numa epopeia que esteve à beira da tragédia, imortalizada em filme. “Houston, we have a problema!” ecoou no mundo a frase de Jim Lovell, comandante da operação, interpretado pelo actor Tom Hanks, numa saga motivada por falhas no sistema de abastecimento de oxigénio.
Durante a passagem pelo lado oculto da Lua, a Orion esteve 40 minutos incontactável tendo o satélite natural como obstáculo interposto.
No regresso, na reentrada na atmosfera, outros longos 6 minutos de silêncio sob a capa de isolamento a proteger de metade da temperatura do Sol, numa trajectória incandescente e flamejante.
Tudo isto com os olhos postos em 2028, com vista à repetição da alunagem perpetrada 6 vezes entre 1969 e 1972, da Apollo 11 à Apollo 17, incluindo a abortada tentativa da Apollo 13, para alimento da superstição humana.
O record de distância de separação da Terra, traz algumas lições e reflexões.
Ao observar o nosso astro, a beleza e a perplexidade invadiram as palavras de Weisman à chegada. “Sinto-me infinitesimalmente pequeno”.
Uma afirmação entre as restantes da equipa, preenchidas de humildade e deslumbramento.
Lá em baixo o paraíso a contrastar com a aridez da Lua. 14 eclipses visualizados ao longo da jornada. A experiência de quarenta minutos na sombra da face oculta da Lua, com a casa comum escondida das retinas.
Lá de cima, de onde é possível adivinhar a muralha da China e o apagão em territórios em guerra, o afastamento não foi maior que o distanciamento entre nações em conflito, a indiferença entre semelhantes, a hipérbole da tirania, a obsessão pela destruição, o desrespeito pelo clima e a antevisão do caos.
Mesmo com o Sol que ainda nos ilumina no ciclo da rotação, é cada vez mais evidente que as trevas nos ameaçam. Em cada hemisfério, a oriente e a ocidente, temos um lado escuro da Terra, drasticamente, a pulsar no limiar da sobrevivência.
Sob o signo da inteligência artificial e de lágrimas contidas e reprimidas.

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