CRÓNICAS ENTRE DOURO E MINHO (romarias)

Atualizado: 20 de set.
QUANDO A TERRA REZA
Douro e Minho: entre a fé, a memória e a festa, um povo continua a caminhar

Entre Agosto e Setembro, o Douro e o Minho transformam-se num imenso território de romarias. Das margens do Atlântico às montanhas, das pequenas capelas aos grandes santuários, milhares de pessoas continuam a repetir uma tradição secular: caminhar juntos para celebrar, agradecer, pedir e recordar. Mais do que festas religiosas, as romarias são um dos lugares onde uma comunidade reconhece a sua identidade.
Há terras que se conhecem com os pés. Outras conhecem-se com a memória. O Douro e o Minho exigem as duas coisas. São territórios de rios e montanhas, vinhas e campos, granito e água, trabalho e celebração. Mas são também paisagens humanas, construídas ao longo de gerações por homens e mulheres que aprenderam a transformar a dificuldade da vida numa razão para permanecerem juntos.
É talvez por isso que, quando chega Agosto, as aldeias e cidades se levantam para a festa. E quando Setembro começa a anunciar o fim do verão, continuam a caminhar. Caminham para capelas e santuários, acompanham procissões, seguem andores floridos, escutam bandas filarmónicas e reencontram familiares que regressam de longe. Cada romaria tem os seus rituais, os seus símbolos e as suas histórias, mas todas parecem responder à mesma necessidade: a de pertencer.
Uma romaria é, naturalmente, uma manifestação de fé. Mas é também muito mais do que isso. É uma expressão da memória coletiva, uma forma de preservar costumes, de reencontrar pessoas e de transmitir às novas gerações uma determinada maneira de olhar o mundo. Há quem caminhe para pedir, quem caminhe para agradecer e quem caminhe simplesmente porque precisa de regressar ao lugar onde a sua memória ainda reconhece o próprio nome.
Numa sociedade marcada pela velocidade, as romarias conservam uma coisa aparentemente simples e, por isso mesmo, preciosa: o tempo. É preciso caminhar. Esperar. Acompanhar uma procissão. Parar. Encontrar alguém. Ouvir uma banda ao longe. Deixar que a tarde caia sobre os campos. Há uma pedagogia silenciosa nessa lentidão. Ela recorda-nos que nem tudo o que é importante pode ser vivido depressa.
VIANA DO CASTELO: QUANDO A FÉ ENCONTRA O MAR

Em Viana do Castelo, Agosto tem uma das suas maiores expressões na Romaria de Nossa Senhora da Agonia. Durante vários dias, a cidade transforma-se. As ruas ganham cor, os trajes tradicionais regressam, o ouro das minhotas brilha, as flores multiplicam-se e as bandas filarmónicas fazem da cidade um palco de música e tradição.
No centro está a devoção a Nossa Senhora da Agonia, profundamente ligada à história das gentes do mar. A imagem percorre as ruas acompanhada por multidões que transportam consigo histórias familiares, pedidos, agradecimentos e memórias.
Aqui, a religiosidade popular encontra o Atlântico. E essa proximidade não é apenas geográfica. O mar sempre foi símbolo de partida e regresso, esperança e perigo, vida e morte. Para as comunidades marítimas, a fé nasceu muitas vezes da consciência de que o homem pode dominar algumas coisas, mas permanece frágil diante das forças que não controla.
Talvez seja essa consciência que explica a força da oração junto ao mar.
PENEDA: A MONTANHA COMO CAMINHO INTERIOR

Do litoral sobe-se à montanha. Em Arcos de Valdevez, o Santuário de Nossa Senhora da Peneda surge entre o granito, a água e o silêncio. Aqui, a experiência da romaria assume outra dimensão.
A paisagem obriga a abrandar. A subida exige esforço. O caminho deixa de ser apenas uma ligação entre dois lugares e transforma-se numa experiência pessoal. Há qualquer coisa de profundamente simbólico em subir uma montanha para encontrar um santuário.
Talvez porque toda a subida exterior possa também ser uma oportunidade de olhar para dentro.
A montanha ensina aquilo que a vida moderna tantas vezes esquece: para chegar a determinados lugares é necessário caminhar, e caminhar exige tempo.
VILA PRAIA DE ÂNCORA: A SENHORA DA BONANÇA E AS GENTES DO MAR

Em Vila Praia de Âncora, Nossa Senhora da Bonança mantém uma devoção estreitamente ligada às comunidades marítimas. A festa junta famílias, música, procissão e uma paisagem onde o Atlântico continua a determinar, em grande medida, a memória coletiva.
Durante gerações, a vida destas comunidades não separou o religioso do quotidiano. A oração acompanhava o pescador, a espera acompanhava a família e a fé fazia parte da relação com o mar.
Por isso, estas festas não são apenas acontecimentos do calendário religioso. São também capítulos vivos de uma história social que passa de pais para filhos.
VILA VERDE: QUANDO O CAMINHO É UMA PROCURA DE ESPERANÇA

Em Setembro, em Soutelo, Vila Verde, a devoção a Nossa Senhora do Alívio reúne peregrinos que chegam movidos por diferentes razões. Há quem procure agradecer, quem leve uma preocupação e quem carregue uma dor que não consegue traduzir em palavras.
É aqui que a peregrinação revela talvez uma das suas dimensões mais universais. Caminhar pode ser uma forma de não desistir.
Nem sempre quem parte sabe exatamente aquilo que procura. Mas sabe que precisa de chegar a algum lugar onde possa depositar aquilo que traz consigo.
É essa esperança, muitas vezes silenciosa, que continua a alimentar a tradição.
PONTE DE LIMA: QUANDO O CAMINHO RECUPERA A MEMÓRIA

Em Ponte de Lima, as Romarias a Cavalo acrescentam à paisagem uma dimensão singular. Homens e cavalos percorrem caminhos e estradas, atravessam campos e aldeias e devolvem à paisagem uma imagem que parece recuperar tempos antigos.
O cavalo deixa de ser apenas meio de transporte e transforma-se em companheiro de caminho. A viagem ganha uma dimensão comunitária e a paisagem deixa de ser cenário para se tornar parte da própria experiência.
Há nestas romarias uma espécie de reencontro com a terra. Num tempo em que tantas deslocações acontecem à velocidade de um motor ou de um ecrã, caminhar ou cavalgar lentamente é também recuperar outra relação com o território.
LAMEGO: A ESCADARIA QUE SOBE ATÉ À ESPERANÇA

Em Setembro, Lamego transforma-se para celebrar Nossa Senhora dos Remédios. A monumental escadaria do santuário domina a cidade e tornou-se uma das imagens mais reconhecíveis da religiosidade popular portuguesa.
Mas uma escadaria é também uma poderosa metáfora. Degrau após degrau, o peregrino sobe. O corpo sente o esforço, a respiração muda, o olhar eleva-se. No alto está o santuário, mas a subida pode significar muito mais do que alcançar um lugar.
Pode significar vencer o cansaço, ultrapassar uma dificuldade e recuperar uma esperança.
Durante a grande procissão, Lamego transforma-se num espaço de encontro. Pessoas diferentes caminham lado a lado, unidas por uma tradição que não lhes exige que sejam iguais. Talvez essa seja uma das grandes forças das romarias: não eliminam as diferenças; aproximam as pessoas apesar delas.
UMA FESTA QUE TAMBÉM É MEMÓRIA

Entre Agosto e Setembro, o Douro e o Minho ganham outra respiração. Há foguetes, sinos, música, comida, vinho, flores, ouro, cavalos e procissões. Há crianças que descobrem pela primeira vez uma tradição e idosos que a reconhecem como parte da própria vida.
Há também aqueles que já não estão.
Mas os mortos não desaparecem completamente das romarias. Continuam presentes na memória de quem acende uma vela, numa fotografia guardada, numa cadeira vazia à mesa ou numa oração dita em silêncio.
É talvez uma das funções mais profundas da tradição: permitir que a ausência não seja simplesmente esquecimento.
Uma comunidade não é apenas formada pelos que estão presentes. É também feita daqueles que passaram antes de nós e deixaram marcas naquilo que somos.
O QUE RECEBEMOS, RECEBEMOS PARA GUARDAR

As romarias transportam consigo uma responsabilidade. Uma geração recebe uma paisagem, uma língua, histórias, devoções, músicas, receitas, costumes e formas de celebrar. Mas aquilo que recebe não lhe pertence inteiramente.
Somos, em grande medida, guardiões de uma herança.
A tradição só permanece viva quando consegue dialogar com o presente sem perder a memória daquilo que lhe deu origem. Não se trata de repetir mecanicamente o passado, mas de compreender por que razão determinadas práticas continuam a ter significado.
É essa transmissão que permite que uma criança que hoje acompanha os pais numa procissão possa, daqui a décadas, regressar com os próprios filhos e reconhecer naquele caminho uma parte da sua história.
ENTRE O MINHO E O DOURO, UM POVO QUE CONTINUA A CAMINHAR

Do mar à montanha, das aldeias às cidades, das pequenas capelas aos grandes santuários, as romarias continuam a desenhar um mapa diferente do território. Um mapa feito não apenas de estradas e localidades, mas de memórias, devoções e relações humanas.
Viana do Castelo, Peneda, Vila Praia de Âncora, Vila Verde, Ponte de Lima e Lamego são apenas alguns dos lugares onde esta realidade se torna visível. Em cada um deles existe uma história particular. Mas existe também um traço comum: a vontade de continuar.
Continuar a celebrar. Continuar a agradecer. Continuar a recordar. Continuar a caminhar juntos.
Talvez seja por isso que as romarias permaneçam tão atuais num mundo que parece ter perdido muitos dos seus lugares de encontro. Elas oferecem algo que nenhuma tecnologia consegue substituir: a experiência de estar fisicamente ao lado de outras pessoas, partilhar um caminho, reconhecer rostos, ouvir vozes e sentir que pertencemos a uma história maior do que a nossa.
Quando as festas terminam, desmontam-se os palcos, recolhem-se os enfeites, silenciam-se as bandas e as ruas regressam lentamente à rotina. Mas alguma coisa permanece.
Fica uma música na memória. Uma imagem. Um cheiro. Uma oração. Um encontro. Uma promessa.
E talvez fique, sobretudo, a consciência de que a vida não é apenas aquilo que conseguimos controlar. É também aquilo que recebemos, aquilo que partilhamos e aquilo que entregamos aos que vêm depois de nós.
Entre Agosto e Setembro, quando o verão começa a perder força e as tardes se tornam mais breves, o Douro e o Minho continuam a caminhar.
Do mar à montanha. Dos campos às vinhas. Da aldeia à cidade. Da oração silenciosa ao cântico de uma multidão.
E talvez seja então que melhor compreendemos o verdadeiro significado da romaria: não somos apenas nós que caminhamos para a festa. A festa, a fé e a memória caminham connosco.
Caminham dentro da nossa identidade, dentro da nossa história e dentro daquilo que ainda somos.
Porque, enquanto um povo souber agradecer, recordar e caminhar junto, a sua alma ainda não envelheceu.
*Diácono da Diocese do Porto

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