CRÓNICAS NUM JARDIM...
- Andreia Olim

- 12 de fev.
- 1 min de leitura
Quando o mundo se desligar

Quando o mundo se desligar, não será em silêncio. Será com vento a rasgar ruas, chuva a cair sem pedir licença e um país inteiro a reaprender o significado da palavra fragilidade.
Portugal, já conhece este som: árvores a ceder, telhados a levantar voo, o escuro a entrar pelas casas como um aviso. As luzes apagam-se e, com elas, a ilusão de controlo. De repente, tudo o que parecia sólido depende de uma vela.
No escuro, o tempo muda de forma. Não há notificações a interromper o medo, nem ecrãs a fingir normalidade. Há pessoas juntas, corpos próximos, vozes baixas a tentar acalmar o que não se vê pela janela. A tempestade passa a ser mais do que meteorologia, torna-se espelho.
Sem internet, o mundo não acaba. Mas algo dentro de nós treme. Porque percebemos o quanto precisamos de ruído para não ouvir os nossos próprios pensamentos. E, ainda assim, no meio do caos, nasce uma estranha lucidez: sobrevivemos melhor quando nos olhamos nos olhos. Quando a eletricidade regressar, virá com pressa, com alertas, com explicações técnicas. Dirão que foi apenas mau tempo, um evento fora do comum, estatísticas, previsões.
Mas quem esteve acordado no escuro saberá a verdade: não foi o vento que nos deixou vulneráveis. Foi termos esquecido como ficar juntos quando tudo se apaga. E talvez o mundo precise de se desligar para nos lembrar do que realmente mantém a luz acesa

Parabéns pelo texto! Um exemplo perfeito de como se pode, em dezasseis linhas, dizer - com rigor linguístico e sentido estético - o fundamental sobre uma das maiores feridas do nosso tempo.
A Lucidez é imprescindível para o equilíbrio emocional e o Bem-Estar mental.