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Crónicas para qualquer dia

  • Foto do escritor: Catarina Gouveia
    Catarina Gouveia
  • 27 de fev.
  • 2 min de leitura

Mais do que flores, igualdade!



"Todos os dias, uma mulher é violada em Portugal." Esta frase não pode ser apenas ruído de fundo entre uma crónica social e um comentário desportivo; ela é o eco de uma falha civilizacional que teimamos em normalizar. A estatística é aterradora, mas o que a torna verdadeiramente perturbadora é a forma como a sociedade ainda escolhe ensinar as mulheres a protegerem-se, em vez de educar os homens para o respeito básico pela autonomia alheia. Vivemos num sistema que, perante a agressão, ainda pergunta "onde estavas?" em vez de questionar a impunidade de quem reincide sem remorso. Esta violência, que tantas vezes culmina no abuso físico, começa muito antes: na piada machista, no controlo asfixiante do telemóvel no namoro ou na ideia retrógada de que a mulher é o "elo mais fraco" da corrente humana.

Esta perceção de fragilidade é o maior mito da nossa história, construído sobre o apagamento sistemático de quem moldou o mundo moderno. Quando falamos de tecnologia, o senso comum raramente evoca o nome de Ada Lovelace, a visão extraordinária que, em pleno século XIX, escreveu o primeiro algoritmo da história. Ela não foi apenas uma assistente; ela foi a arquiteta intelectual da era digital em que vivemos hoje. No entanto, o seu génio foi, durante gerações, empurrado para as notas de rodapé da ciência, tal como o esforço das mulheres que sustentaram economias inteiras e geriram nações em tempos de crise foi reduzido ao âmbito doméstico. As mulheres não saltaram magicamente "do fogão para o computador"; elas sempre estiveram na vanguarda do pensamento, apenas lhes foi negado o crédito da autoria.

A mesma resistência foi necessária para conquistar a cidadania básica. Em Portugal, figuras como Carolina Beatriz Ângelo não esperaram que lhes oferecessem o direito ao voto; elas desafiaram a lei, expondo as contradições de um sistema que exigia deveres mas negava direitos. A luta sufragista não foi um pedido educado de participação, foi um ato de coragem política que provou que a inteligência e a consciência cívica não têm género. É esta herança de luta que desmente o estigma social da mulher limitada às atividades domésticas ou sobrecarregada pela maternidade como se fosse um fardo profissional. A mulher contemporânea não "tenta" conciliar o trabalho e a família; ela fá-lo todos os dias com uma competência que o preconceito das mentes mais retrógadas ainda se recusa a validar.

Por tudo isto, o Dia Internacional da Mulher não pode continuar a ser apenas uma data de celebração estética. Celebrar a beleza e a força feminina é vazio se não houver um compromisso real com a sua segurança e dignidade. A gratidão de uma sociedade não se mede com ramos de flores, mas com a garantia de que nenhuma mulher terá de temer o caminho de volta para casa ou o silêncio de uma relação abusiva. O respeito não é um favor concedido, é um direito inalienável que começa na educação e termina na justiça. Se queremos verdadeiramente honrar as mulheres que movem o mundo — as poderosas, as inteligentes e as que lutam no anonimato — temos de começar por lhes dar o que a história sempre lhes tentou roubar: o reconhecimento pleno, a voz sem filtros e o respeito que não precisa de flores para se fazer valer.

 

 
 
 

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