CRÓNICAS SEM HORAS...
- Rafael Rodrigues

- 12 de fev.
- 2 min de leitura
PERDER TEMPO COM DIGNIDADE

Há dias em que o tempo acorda antes de nós, toma banho primeiro e sai a correr sem se despedir. Hoje foi desses. Domingo, ainda por cima. Dia oficialmente criado para não fazer nada, mas que insiste em vir com lista de tarefas, relógio nervoso e aquela sensação de que estamos atrasados para coisa nenhuma.
O tempo anda apressado. Nós vamos atrás, a fingir que mandamos nele. Em resumo, nós não mandamos.
Dizem-nos que Fevereiro é o mês mais pequeno. Mentira piedosa. Fevereiro não é pequeno, é concentrado. É um cafezinho curto, com pouco volume mas muito efeito. Pisca o olho, promete muito e desaparece antes de pedirmos açúcar. Mas se sorrir, mesmo em versão pocket, já valeu a pena.
O problema não é o tempo que passa. É o tempo que não sentimos passar. Esse é que dói depois. O tempo vivido à pressa, engolido sem mastigar, sem sabor, sem memória. Um desperdício elegante, mas desperdício na mesma.
Por isso, há que aprender a esconder tempo. Criar nichos secretos. Gavetas invisíveis no dia onde guardamos momentos proibidos ao relógio, é uma conversa que se estica, um silêncio confortável, um riso fora de horas, uma palavra dita em tom baixo, daquelas que só se dizem entre cúmplices.
Porque certas palavras não gostam de luz forte. Não se dão bem com a polícia dos adultos, com horários rígidos, com manuais de bons costumes. São palavras simples, quase inocentes, mas carregam vida, corpo, movimento. E como tudo o que é vivo, precisam de confiança para existir.
E é aí que o tempo se rende. Quando falamos. Quando ousamos. Quando quebramos a sentença antiga que nos manda calar. Tudo é proibido, dizem. Então falamos. Sempre foi assim. Ainda bem.
Que este domingo tenha tempo. Não muito. O suficiente. Que cada um encontre um esconderijo onde o tempo não manda, não apaga e não corre. Um lugar onde o tempo fica. Mesmo que só por um bocadinho.
Porque, no fundo, viver bem não é ter tempo.
É saber perdê-lo com arte.
Rafael

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