Crónicas sem tempo
- Miguel Assis

- 8 de mai.
- 2 min de leitura
“A CULTURA É A ARCA DO TESOURO DOS POBRES” (Ruy de Carvalho)

No passado mês de março, o ator Ruy de Carvalho completou 99 anos. Não é coisa pouca, nem uma data qualquer pois, além do feito extraordinário de completar um século de existência, há outras particulares que fazem deste homem um ser raro, único.
Após recuperar de um AVC, revelando uma admirável resiliência, o ator voltou aos palcos, no passado dia 22 de abril, retomando o seu papel na peça A Ratoeira, de Agatha Christie, sendo recebido no Coliseu do Porto por um merecido coro de aplausos, que pareceu não ter fim. O enorme Ruy de Carvalho é, atualmente, o mais velho ator do mundo, em atividade. Dono de um talento incomensurável, não é apenas mais um ator, mas a própria alma do teatro português, uma memória viva que carrega em si mil vidas e personagens e uma excelência artística, somente ultrapassada pela dignidade e pelo humanismo.
Conheci Ruy de Carvalho, no Fórum Municipal Luísa Todo, há pouco mais de três décadas, quando interpretei a personagem Duarte, o adorável mentiroso, de “Falar Verdade a Mentir”, de Almeida Garret. Lembro-me, perfeitamente, da noite em que Ruy de Carvalho, foi assistir ao espectáculo, pois vivi, nessa precisa noite, o momento mais embaraçoso que já experienciei em palco e um dos momentos mais espantosos que experienciei na vida: o ator que contracenava comigo deu-me uma "deixa" incorreta, que comprometia a continuação da peça e logo a seguir saiu de cena. Eu fiquei sozinho no palco, em pânico, sem saber como resolver aquilo, nuns segundos de silêncio que, na inexperiência dos meus 20 anos e com uma plateia repleta a olhar para mim, me pareceram horas. Resultou que o público todo achou que tinha sido eu a enganar-me. O público todo exceto Ruy de Carvalho, que conhecia bem o texto, que percebeu que o engano não havia sido meu e que no fim do espectáculo se deu ao trabalho de ir ao meu camarim para me dizer: "Rapaz, eu sei que não foste tu que te enganaste. Dá cá um abraço." Eu fiquei embasbacado e tão surpreendido, perante tal gesto de humildade daquele que já era, na altura, o maior ator português e um dos maiores do mundo (sendo eu, na época , um miúdo sem nenhuma experiência e importância), que nem consegui agradecer-lhe. Só retribuí esse abraço 30 anos depois, numa homenagem da cidade de Setúbal, ao ator e pude, finalmente, agradecer-lhe por ter transformado o momento mais constrangedor da minha carreira, num dos momentos mais felizes da minha vida.
Em abril deste ano, Ruy de Carvalho foi alvo de uma histórica e emocionante homenagem, na Assembleia da República, sendo distinguido pelo seu percurso de oito décadas dedicadas à arte da representação. Com a humildade que o caracteriza, comentou: "Estimem a cultura, porque a cultura é a arca do tesouro dos pobres".
O abraço que lhe dei, com três décadas de atraso, é infinito. E, penso que há um Portugal inteiro que me acompanha neste gesto de afeto e neste eterno agradecimento.


Sem dúvida, Miguel Assis! Grata pela partilha.